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    Manejo integrado de pragas e doenças em cana-de-açúcar

    Pragas e doenças possuem caráter significativo quando pensamos na produção de cana-de-açúcar.
    Marluce Corrêa Ribeiro, Jornalista e Redatora, Agromulher
    Como proteger a Cana-de-açúcar de Pragas e Doenças?
    Como proteger a Cana-de-açúcar de Pragas e Doenças?

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    Cana-de-Açúcar

    Quando falamos do setor sucroenergético brasileiro, logo lembramos do destaque ocupado pelo Brasil no ranking mundial de produção de cana-de-açúcar, mas também pensamos nos desafios que podem comprometer esta produção tão importante para o país. Pragas e doenças possuem caráter significativo quando pensamos na produção de cana-de-açúcar. Mas, para entender melhor as estratégias de manejo que podem ser utilizadas durante o ciclo da cultura, precisamos conhecer quais são os maiores problemas fitossanitários para o setor produtivo desta cultura no Brasil atualmente. Continue sua leitura e conheça alguns destes desafios da cana-de-açúcar que geram prejuízos aos produtores brasileiros.


    Principais pragas do canavial

    Dentre muitas pragas que atacam a cana-de-açúcar, a broca da cana, o bicudo e a cigarrinha das raízes são insetos que causam sérios danos e muitos prejuízos para o produtor. Vamos conhecer cada uma delas e como manejá-las?


    Broca da cana (Diatrea sacchralis)


    Espécie amplamente encontrada em todo o Brasil, gera maiores prejuízos em sua fase de lagarta, apresentando maior incidência em períodos de alta temperatura e umidade. As lagartas mais novas têm o hábito de se alimentar das folhas e, posteriormente, migram para dentro do colmo, onde fazem galerias, causando perda de pesos dos colmos, morte das gemas, tombamento das plantas e impedimento do fluxo da seiva.


    Como um dos métodos dentro do manejo integrado de pragas, o controle biológico é amplamente utilizado para a broca da cana, com o uso do parasita de ovos Trichogramma galloi, o parasitoide de larvas Cotesia flavipes e bioinseticidas como a aplicação de Bacillus thuringiensis. 


    Outro método também utilizado para esta praga é o controle químico, com o uso de inseticidas visando o controle para a fase inicial de larvas antes de perfurar o colmo (broca ainda na bainha). 


    E a mais nova alternativa para o controle da broca da cana é o uso de plantas geneticamente modificadas com genes que expressam proteínas tóxicas à broca da cana-de-açúcar, como é o caso de toxinas provenientes de Bacillus thuringiensis (Bt).


    Bicudo da cana (Sphenophorus levis)


    O bicudo da cana-de-açúcar é um besouro que gera maiores danos quando está na fase larval, pois se alimenta no interior dos rizomas e parte basal dos colmos em desenvolvimento, formando galerias, diminuindo o número de raízes efetivas e, consequentemente, afetam a produtividade e longevidade dos canaviais. 

    O ataque do bicudo-da-cana aparece em reboleiras. E é considerada uma praga de difícil reconhecimento e controle, uma vez que os adultos ficam abaixo da superfície do solo. Em algumas regiões, observa-se redução de 20 a 30 toneladas por hectare por conta do ataque desta praga. A hipótese mais provável é que sua disseminação ocorra por mudas infectadas. 

    Para esta praga, o controle biológico tem se mostrado bastante eficiente no controle das larvas. O tratamento associado ao uso do fungo Metarhizium anisopliae em soqueiras de cana-de-açúcar consegue controlar tanto adultos quanto larvas do bicudo.

    Mas o principal método de controle consiste na destruição de soqueiras, com o eliminador mecânico, preferencialmente no período de maio a setembro, aliado ao plantio de mudas isentas da praga. 

    Outra forma de controle utilizada é o cortador de soqueira com aplicação química direcionada sobre a soqueira, visando o controle de larvas e adultos.


    Cigarrinha das raízes (Mahanarva fimbriolata)


    A cigarrinha das raízes encontra na palhada da cana-de-açúcar as condições ideais para sua sobrevivência. Esta praga é problema tanto na fase de ninfa quanto na fase adulta. Na fase de ninfa, o ataque direto das cigarrinhas ocorre quando elas se alimentam da seiva das raízes e causam desidratação da planta. Este ataque gera o aumento do teor de fibra nos colmos, diminuindo a produção de sacarose da cana-de-açúcar. Já na fase adulta, a cigarrinha das raízes pode se alimentar das folhas e colmos. E nesta fase, o inseto libera uma toxina que causa danos ao tecido da planta.


    Em condições de altas densidades populacionais podem causar grandes perdas nos canaviais, podendo levar à redução de 25% na produtividade. Um dos métodos que tem obtido sucesso no controle desta praga é o controle biológico com o fungo Metarhizium anisopliae. 


    Outro método de controle é o químico, com o uso de inseticidas nas fases de ninfas e adultos. Mas, assim como em qualquer outra cultura agrícola, recomenda-se a racionalização do uso de produtos químicos, evitando o desequilíbrio biológico.


    Principais doenças do canavial


    Além das inúmeras pragas citadas, outro grande problema na cultura da cana-de-açúcar são as doenças. Já foram descritas mais de 200 doenças (causadas por fungos, bactérias, vírus e fitoplasmas) na cana-de-açúcar. Mais de 50 destas já foram relatadas no Brasil. Historicamente, as mais importantes para cultura canavieira no Brasil são: carvão da cana; escaldadura das folhas; raquitismo das soqueiras; mosaico; estria vermelha; mancha parda; ferrugem marrom; podridão vermelha; podridão abacaxi e ferrugem alaranjada.


    Recentemente, a ferrugem alaranjada (Puccinia kuehnii) passou a ser considerada uma das doenças que mais ameaçam a cultura da cana-de-açúcar, tendo surgido no Brasil pela primeira vez em 2009. No início de 2010, se alastrou para plantações do Paraná, Mato Grosso do Sul, Espírito Santo e Minas Gerais.


    A seguir, abordaremos com detalhes algumas destas doenças e principais métodos de controle utilizados em campo.


    Ferrugem da cana (Puccinia kuehnii e Puccinia melanocephala)


    Quando falamos em ferrugem da cana-de-açúcar, há duas principais espécies de fungos causadores destas ferrugens que são importantes para o setor sucroenergético no Brasil. São eles o fungo Puccinia kuehnii, causador da ferrugem alaranjada, e Puccinia melanocephala, causador da ferrugem marrom.

    Algumas características específicas de cada uma destas doenças permitem identificá-las de forma assertiva e satisfatória. A ferrugem alaranjada, por exemplo, costuma se desenvolver no final do ciclo da cultura e é beneficiada por molhamento foliar por longas horas e temperaturas amenas. Já a ferrugem marrom inicia o seu desenvolvimento em plantas mais jovens, no período da primavera. Em variedades suscetíveis, as perdas podem chegar a 50%.

    A disseminação de ambas ocorre pelo vento que transporta os esporos do fungo. E o único método de controle viável tem sido o uso de variedades resistentes.


    Carvão da cana-de-açúcar (Sporisorium scitamineum) 


    O carvão é uma doença causada por fungo e é facilmente identificada pela produção de uma estrutura chamada “chicote” a partir do ápice da cana-de-açúcar. A doença leva este nome porque os esporos do fungo parecem fuligem e se espalham pelo canavial através do vento.


    Embora o sintoma típico de carvão seja a emissão destes chicotes que comentamos anteriormente, outros sintomas podem ser observados até mesmo antes da emissão dos chicotes:

    • Afinamento dos colmos; 

    • Superbrotamento das touceiras; 

    • Desenvolvimento de gemas laterais;

    • Diminuição do tamanho das folhas.


    As principais medidas de controle são a utilização de mudas sadias, a erradicação de plantas e colmos doentes e o uso de variedades resistentes.


    Escaldadura das folhas (Xanthomonas albilineans)


    A escaldadura das folhas da cana-de-açúcar é causada pela bactéria Xanthomonas albilineans. Esta doença apresenta ocorrência de três tipos de sintomas, o que pode dificultar a identificação das plantas doentes. 

    Nos sintomas de latência não são observados sintomas externos na planta. Internamente, em colmos maduros, observa-se alteração na coloração dos vasos que se assemelha a que ocorre em plantas com raquitismo.

    No sintoma crônico temos a clássica escaldadura, constituída de estrias brancas, de largura variável, que se estende por todo o limbo foliar, podendo descer pela bainha. Também pode-se observar o início da brotação das gemas basais em colmos maduros. 

    Já o sintoma agudo só ocorre em condições extremamente favoráveis à doença e em variedades suscetíveis. Esta fase é caracterizada pela queima das folhas, intensa brotação lateral começando da base para o ápice e grande número de canas mortas.

    Diante desta variedade de sintomas, é comum que os sintomas clássicos demorem a aparecer, e quando aparecem já há uma grande infestação no canavial.

    A doença é transmitida por mudas contaminadas, por ferramentas que são usadas durante o preparo de mudas e também durante o corte, e ainda por resíduos de cultivos anteriores.

    Desta forma, a principal forma de controle da escaldadura das folhas é feita por meio de variedades resistentes e tolerantes, uso de mudas sadias e desinfecção de instrumentos.

    Além das pragas e doenças citadas neste artigo, há inúmeras outras que causam prejuízos e grandes problemas para a cultura da cana-de-açúcar, com destaques variados a depender da região, do clima e da safra. E ainda vale ressaltar a atenção necessária a nematoides que são parasitas das raízes de diversas culturas, e também ocorrem na cana-de-açúcar. O mais encontrado nas lavouras de cana do Brasil é o Pratylenchus zeae. 


    Como manejar as pragas e doenças da cana-de-açúcar?


    Como vimos até aqui, muitas são as formas de disseminação tanto de pragas quanto de doenças na cultura da cana-de-açúcar. Diante disso, há algumas recomendações gerais que contribuem para um manejo saudável da lavoura e manutenção do potencial produtivo de cada talhão.


    O controle da maioria das doenças é realizado com uso de variedades resistentes. Por isso é extremamente importante o produtor estar atento à genética que utiliza em sua lavoura. Além disso, é indispensável o monitoramento constante das áreas, o uso de mudas sadias, a escolha de local adequado, o respeito à janela de plantio, a adubação balanceada e tantas outras estratégias que contribuem para o equilíbrio do sistema durante todo o ciclo da cultura. Em caso de doenças causadas por bactérias, é recomendada a desinfecção de objetos de cortes e colheitadeiras.


    Além destes métodos físicos e culturais já citados do manejo de pragas e doenças, o controle químico e o controle biológico são muito utilizados para o manejo fitossanitário na cana-de-açúcar. Cases de sucesso mostram que a aplicação dos biológicos na cana-de-açúcar é perfeitamente possível e com grande resposta.


    Você já ouviu falar sobre “roguing”?


    E dentro destas estratégias de manejo de pragas e doenças, há uma prática que busca a manutenção de alto nível de sanidade nos viveiros das mudas: o chamado roguing. 


    Roguing nada mais é que o trabalho de inspeção efetuado nos viveiros como forma de vigilância constante para evitar que doenças possam comprometer a produção de mudas. Este trabalho é realizado por uma equipe especialmente treinada para reconhecer e eliminar as plantas indesejadas. 


    Além das plantas doentes, essa prática também visa a eliminação de “misturas varietais” e remanescentes de cultivos anteriores. Recomenda-se a realização de, no mínimo, três operações de “roguing”, aos dois, quatro e seis meses após o plantio do viveiro. 


    Diante de tantas estratégias possíveis no manejo de pragas e doenças da cana-de-açúcar, entende-se que a integração entre todos estes métodos se configura como a melhor estratégia para continuarmos sendo o setor sucroenergético de destaque que o Brasil representa mundialmente.