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    RETROSPECTIVA 2023: Um overview sobre a produção no campo e o mercado agro

    Conecta traz uma análise dos principais fatos e números que impactaram o agronegócio no Brasil e no mundo no ano que termina
    Rafael De Marco
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    RETROSPECTIVA TRIGO: Impactados pela safra anterior, preços terminam 2023 expressivamente mais baixos no Brasil

    O mercado brasileiro de trigo encerra o ano de 2023 com preços expressivamente mais baixos. A variação da média nacional é negativa em 26,5% na comparação com o final do ano passado. No Rio Grande do Sul, a retração anual é de 16,9%. No Paraná, 23,5%.

    Segundo o analista de SAFRAS & Mercado, Elcio Bento, a queda menos intensa no Rio Grande do Sul em relação ao Paraná se explica pelos movimentos da produção em ambos os estados. Entre janeiro e agosto, o mercado nacional é regido pelo quadro de abastecimento do ano comercial 2022/23 do trigo, com o produto colhido em 2022. “Somente no último quadrimestre, os preços refletem com maior intensidade os dados de oferta e demanda da temporada 2023/24”, disse.


    Nos primeiros sete meses de 2023, os gaúchos estavam negociando uma safra que ultrapassou 6 milhões de toneladas. O consumo da indústria local é inferior a 2 milhões de toneladas. No Paraná, a produção da temporada 2022/23 foi duramente castigada pelo excesso de chuvas. Cerca de 50% da produção do estado não atingia o padrão de qualidade tipo 01, além de outros indicadores reológicos ruins. A moagem nesse estado é próxima a 3,8 milhões de toneladas.

    Os preços tiveram três momentos distintos no ano.

    O primeiro , de janeiro a abril;
    O segundo , de maio a setembro;
    O terceiro, de outubro em diante.

     

    Janeiro a abril
    No primeiro, ainda sob os reflexos da produção recorde gaúcha e da quebra paranaense, os preços domésticos seguiram uma dinâmica própria e com baixa correlação com as paridades de importação e exportação. Com a Argentina pouco presente no mercado internacional, o grande excedente de grãos no Rio Grande do Sul foi uma alternativa viável para os moinhos paranaenses. Esse movimento interno foi potencializado pela queda acentuada das cotações internacionais. Entre janeiro e abril, o trigo negociado na Bolsa de Chicago recuou 24%. De um lado, a janela da exportação ficou pouco atrativa para os gaúchos. Por outro, o Paraná, principal polo moageiro do país precisava comprar. Sua principal fonte internacional, a Argentina tinha pouco trigo. E esse pouco trigo estava caro, explicou. O RS servia de referência para a formação de preços no PR.

    Maio a setembro
    No segundo período, de maio a setembro, os preços no Paraná caíram 46,3%. No Rio Grande do Sul, a queda foi de 33,8%. As cotações paranaenses no início desse segundo período eram R$ 300 por tonelada superiores às gaúchas. No final, chegaram a ser R$ 120 por tonelada inferiores. Nesse segundo momento do mercado em 2023, os preços internacionais seguiam em baixa e, mesmo com os temores de uma eventual quebra da safra nacional devido ao El Niño, a previsão era de uma colheita com potencial para atingir 12 milhões de toneladas, disse. O analista lembra que o Paraná havia iniciado a colheita de um montante previsto de 4,8 milhões de toneladas, o que atenderia a demanda estadual com folga. No Rio Grande do Sul, o potencial estimado era de 5,2 milhões de toneladas. Menos que os 6,01 milhões de toneladas da safra anterior, mas ainda gerando um excedente próximo a 3 milhões de toneladas. Como o Paraná não precisaria comprar, a torneira da exportação teria que ser aberta para competir com trigos baratos no exterior. O mercado doméstico se ajustou a essa realidade. O trigo do Paraná, na segunda quinzena de setembro chegou a ser o mais acessível do mundo. As vendas externas só não ocorreram porque o porto de Paranaguá (PR) não conseguia absorver nem mesmo a safra de verão. As chuvas dificultavam as operações e os embarques estavam atrasados, disse.

    De outubro em diante
    O terceiro momento e último momento, iniciou quando a possibilidade de quebra de safra devido ao excesso de chuva em anos de El Niño passou a ser uma realidade. O Paraná colheu 3,65 milhões de toneladas. O Rio Grande do Sul, 3,33 milhões de toneladas. Com o potencial produtivo indo por água abaixo, em poucos dias, o mercado se distanciou do nível de paridade de exportação e colou no de importação, disse o analista. No Rio Grande do Sul, por exemplo, na média de outubro/23 os preços indicados no interior do estado ficaram em R$ 1.050/tonelada. Olhando-se para a paridade de exportação, para chegar ao porto de Rio Grande/RS ao mesmo preço que o russo estava saindo do Mar Negro, também na média de outubro/23, era necessário vender a R$ 1.021/tonelada no FOB interior. Ou seja, as cotações domésticas estavam apenas 2,8% da linha de paridade com o trigo russo. Já em meados de novembro, a indicação no FOB interior ficava por volta de R$ 1.250/tonelada. A paridade de exportação em relação ao cereal russo seria de R$ 945/tonelada. O spread subiu para 32%. Fazendo a conta de paridade de importação - utilizando-se como referência a aquisição de trigo argentino de safra nova - na média de outubro, o produtor poderia vender a R$ 1.295/tonelada para chegar ao mesmo preço que o Argentino no CIF de Canoas, o preço de mercado (R$ 1.250/tonelada) era apenas 2% inferior à paridade com o trigo do principal fornecedor brasileiro no exterior. Quando essas contas são feitas para o Paraná, na média de outubro, o preço interno era 4% inferior à paridade de exportação e 26% superior à de importação. Em novembro, estava 24% acima da paridade de exportação e 4% acima da paridade de importação. Em ambos os estados fica claro que os preços migraram rapidamente da paridade de exportação - referência para mercados com excesso de oferta interno - para a de importação - que baliza mercado com escassez de abastecimento doméstico. Assim que os preços atingiram a paridade de importação, a escalada de alta cessou. A partir dessa linha, a opção de compra internacional voltou a ser uma realidade. O analista projeta que, como a Argentina deverá voltar a ser agressiva no mercado internacional, a tendência para os meses de 2024 que serão regidos pelos números da temporada 2023/24 é de que as cotações domésticas sigam balizadas pela paridade de importação. Nesse cenário, o comportamento do câmbio e dos preços internacionais do trigo voltarão a ser variáveis extremante importantes para a formação de preços.

     

    RETROSPECTIVA SOJA: Ano de 2023 traz ambiente desafiador aos produtores

    O mercado da soja em 2023 teve um comportamento diferente do registrado nos últimos anos no Brasil, trazendo um ambiente mais desafiador para os produtores. A constatação é do analista e consultor de SAFRAS & Mercado, Luiz Fernando Gutierrez Roque. “Em mais um ano de La Niña, havia apreensão de que o cenário registrado em 2022 voltasse a se repetir em 2023, com possíveis grandes perdas produtivas no Sul do Brasil. Mas, o que se viu foram grandes produtividades nas regiões Centro-Oeste, Sudeste, Norte e Nordeste, que acabaram compensando uma nova perda produtiva que se restringiu basicamente ao estado do Rio Grande do Sul”, destaca o analista.


    Embora tenha registrado problemas (o estado gaúcho), teve uma colheita superior à registrada no ano anterior, acrescenta. “Esse cenário resultou na maior produção brasileira da história, com uma safra ao redor de 158 milhões de toneladas. Diante disso, a partir do início da colheita brasileira, os preços começaram a recuar em todo o país, com desvalorizações inéditas nos valores da saca”, lembra o Gutierrez Roque.

    Tal fato assustou os produtores, que tentaram se retrair ainda mais na comercialização, à espera de preços melhores. Mas, de fato, tivemos preços cada vez menores durante o primeiro semestre do ano, o que trouxe uma grande perda de margem para a ponta vendedora, lamenta o analista. Nem mesmo a histórica quebra produtiva da Argentina e uma demanda por exportação recorde no Brasil foram capazes de impedir uma queda acentuada nos preços internos brasileiros, visto o tamanho da produção nacional.

    Segundo semestre
    Esse ambiente negativo para os preços perdurou até o início do segundo semestre, quando as cotações voltaram a esboçar alguma recuperação devido aos problemas registrados na safra norte-americana, que trouxeram fôlego para a Bolsa de Mercadorias de Chicago. “Apesar disso, os produtores brasileiros avançaram para o plantio da nova safra mais receosos devido às margens menores, o que resultou em um aumento de área em nível nacional mais tímido frente ao registrado nas últimas safras”, explica.

    Daí para frente, as atenções ficaram focadas no clima, com a chegada do fenômeno El Niño e seus possíveis impactos, que agora se mostram mais intensos dos que os estimados inicialmente, trazendo dúvidas com relação a como será o cenário de preços em 2024.

     

    RETROSPECTIVA SUINOS: Setor teve 2023 desafiador, mas apresentou melhora diante de outros anos

    O ano de 2023 foi um ano desafiador para a suinocultura, mas apresentou aspectos positivos se comparado aos anos anteriores. De acordo com o analista de SAFRAS & Mercado, Allan Maia, os grandes prejuízos registrados nos últimos 2 anos ficaram no passado. "Contudo, a rentabilidade se manteve apertada no fechamento de 2023", pontua. Segundo ele, o primeiro semestre foi mais difícil, com curva de preços em queda, tanto do suíno vivo como da carcaça.


    "Com margens ruins no primeiro quadrimestre, muitos suinocultores adotaram a estratégia da redução do peso médio dos animais, que até conseguiu resultar em um quadro de disponibilidade doméstica controlado. No segundo semestre, a curva de preços ficou em um patamar estável, sem espaço nem para quedas e nem altas contundentes, mas com consumo doméstico mais favorável, registrando seu ápice agora em dezembro", explica.

    Como ponto de destaque, Maia lembrou da produção e disponibilidade doméstica elevada. "Mesmo a suinocultura brasileira vindo de anos muito ruins, não houve grandes tomadas de decisão em relação a corte de alojamento e nascimentos. Em 2023, muitos investimentos começaram a maturar e, com isso, os abates e a produção avançaram, pesando na formação de preços. Vale destacar que a exportação brasileira não conseguiu enxugar todo excedente de produção e a disponibilidade doméstica se manteve elevada durante o ano todo", disse.

    Além disso, Maia afirmou que foi possível observar uma força significativa na exportação, mesmo com a China menos atuante no mercado. "Os volumes embarcados pelo Brasil foram excelentes, com maior diversificação dos destinos, resultado de abertura de novos mercados. Contudo, o preço da tonelada desacelerou ao longo do ano e principalmente do segundo semestre, reduzindo as margens da indústria e piorando a evolução de preços do suíno vivo no interior do país", ressaltou.

    China
    A China foi grande responsável pela queda da tonelada, uma vez que é o maior importador global de carne suína. A crise da suinocultura na China se intensificou ao longo do ano, com avanço de excedente de oferta e desaceleração econômica, o que impactou o consumo local. O custo de produção mais fraco também foi um fator importante no ano de 2023. Segundo Maia, a partir de meados de março, o preço do milho (principal componente da ração) começou a cair com força, trazendo alívio na questão de margem dos suinocultores.

    O custo de produção foi variável crítica para a suinocultura tanto em 2021 e 2022. Resumindo, Maia explica que o fator que mais pesou e impediu retorno de bons lucros para a atividade em 2023 foi a produção elevada. Vale pontuar ainda que a carne suína ocupa a terceira colocação na preferência dos brasileiros, atrás do frango e carne bovina.

    O consumo da carne suína avançou no ano, mas não foi ainda melhor pois as concorrentes também apresentaram preços bastante competitivos. Por fim, o analista afirma que a produção de 2023 deve fechar o ano com crescimento de 3,1%, atingindo 5,262 milhões de toneladas, contra 5,106 milhões de toneladas do ano passado. A exportação 2023 está estimada em 1,188 milhão de toneladas, avanço de 8,3% se comparada às 1,097 milhão de toneladas de 2022. "Com isso, a disponibilidade doméstica do Brasil deve fechar o ano em 4,073 milhões de toneladas, crescimento de 1,6%", conclui.

     

    RETROSPECTIVA FEIJÃO: Carioca busca recuperação em 2023 e preto atinge patamares recordes por estoques ínfimos

    Os preços do feijão carioca iniciaram o ano firmes, mesmo considerando o período de ausência do setor varejista. Segundo o analista e consultor de SAFRAS & Mercado, Evandro Oliveira, o avanço da colheita da primeira safra 2022/23 em importantes regiões produtoras gerou oferta, porém, a demanda se mostrou superior, resultando em cotações elevadas. “A escassez de produtos de boa qualidade já dava sinais no início do ano, após a primeira safra, juntamente com uma boa demanda e preços firmes, especialmente para o feijão de melhor tipo”, afirmou.


    A fase final da primeira safra 2022/23 manteve os preços firmes até meados de abril, período inicial da segunda safra. No entanto, a dificuldade de repasse para o setor varejista, o baixo ritmo de compra e a preferência por venda casada limitaram o giro.

    Segunda safra
    O analista destacou que na segunda safra o mercado seguiu ajustado, com dificuldades no repasse de aumentos no grão. “A baixa qualidade do produto disponível no mercado paulista no segundo trimestre do ano levou os compradores a postergarem reposições, buscando mercadorias de melhor qualidade diretamente nas regiões produtoras”, relatou.

    Mesmo com a queda, as cotações permaneceram em patamares elevados devido à pouca oferta do produto. A partir de meados de julho, teve início a colheita nas áreas irrigadas da terceira safra 2022/23, seguida pelas áreas conduzidas no regime de sequeiro. A oferta do produto extra, anteriormente escassa, foi ampliada a partir de meados de agosto com a intensificação das colheitas nas regiões Centro-Oeste e Sudeste.

    Segundo semestre
    De acordo com Oliveira, no segundo semestre, uma expressiva queda nas cotações foi impulsionada pela presença mínima de compradores. Nesse cenário, os corretores passaram a solicitar preços mais elevados pelo produto, principalmente via embarque. A oferta expressiva do produto, proveniente das colheitas nas Regiões Centro-Oeste e Sudeste do país, atingindo mais de 50% da área plantada em meados de setembro, exerceu uma pressão intensa sobre os preços.

    A partir disso, muitos produtores optaram por fechar suas porteiras, com desinteresse na comercialização e aguardando condições mais favoráveis. Próximo ao final do ano, observou-se uma mudança no panorama, com uma maior demanda, um hiato de oferta devido à entressafra, e os reflexos do fenômeno El Niño. Esses fatores contribuíram para uma recuperação nas cotações da variedade, equilibrando-se finalmente com os preços da variedade do feijão preto após um período prolongado de valores inferiores.

    Feijão preto
    O analista enfatizou que o feijão preto teve um início de ano abastecido pelas sobras da safra nacional e produtos importados da Argentina. No Paraná, principal estado produtor dessa variedade, já se estimava uma redução de 15% na área plantada na primeira safra 2022/23 em comparação com a safra anterior. Até meados do primeiro trimestre, cerca de 65% da produção da primeira safra já tinha sido comercializada. Recorde À medida que o ano avançava, novas valorizações ocorreram devido à melhor procura e à oferta cada vez mais limitada. “Os importadores, cientes do baixo estoque e das condições climáticas adversas no Sul do país, pressionaram por novos aumentos nas cotações”, disse.

    No final de novembro, as cotações do feijão preto atingiram patamares recordes, superando impressionantes R$ 400,00 por saca. O cenário começou a mudar apenas com o início da colheita da primeira safra de 2023/24 no Sul do país. Mesmo assim, conforme Oliveira, as ofertas continuam dominadas por mercadorias importadas. Na segunda metade de dezembro, as cotações do feijão preto retornaram ao equilíbrio em relação ao feijão carioca, marcando um ajuste após meses de movimentos intensos no mercado.

     

    RETROSPECTIVA ARROZ: Em meio às incertezas e com liquidez mínima, mercado chega ao fim do ano renovando recordes

    Com boa parte das unidades de beneficiamento encerrando suas compras nas últimas semanas, a comercialização do arroz permanece bastante restrita, com expectativa de retomada de ritmo apenas na segunda metade de janeiro ou início de fevereiro de 2024. “Os recessos de fim de ano, a diminuição na demanda doméstica e o significativo esfriamento das exportações contribuem para um cenário de liquidez mínima”, enumera o analista e consultor de SAFRAS & Mercado, Evandro Oliveira.


    A fraqueza do dólar em relação ao real, aliada à supervalorização das cotações internas, que reduziram consideravelmente a competitividade do cereal brasileiro, complicou a concretização de novos contratos de exportação, fator que vinha contribuindo para os recentes movimentos de alta. “Apesar das incertezas atuais, há a perspectiva de que o mercado mantenha sua tendência ascendente, pelo menos até o início dos trabalhos de colheita da nova safra”, pondera Oliveira.

    Ao iniciar o ano, o mercado de arroz testemunhava uma dinâmica influenciada por diversos fatores que moldaram seu comportamento nos primeiros meses. O dólar começou 2023 acima de R$ 5,40, tornando o produto brasileiro atrativo para o mercado internacional, resultando em uma boa demanda externa. As indústrias, de olho nas primeiras reposições do ano, retornaram gradualmente, elevando suas ofertas e impulsionando o mercado, que ganhou ritmo à medida que o ano se desenrolava.

    Em meio à expectativa de uma quebra na safra 2022/23 de arroz devido aos reflexos do La Niña e uma sólida demanda externa, os preços dispararam. “Projetava-se a menor safra em aproximadamente duas décadas, contribuindo para uma relação estoque/consumo em seu mais baixo nível histórico”, lembra o consultor.

    Neste contexto, a média da saca de arroz no Rio Grande do Sul (58/62% de grãos inteiros e pagamento à vista) encerrou o dia 26 de dezembro cotada a R$ 125,39, apresentando um avanço de 0,45% em relação à semana anterior. Em comparação ao mesmo período do mês passado, havia uma alta de 8,80%. E um aumento de 36,11% quando comparado ao mesmo período de 2022.

    “A expectativa é de uma possibilidade de recuo nos preços por volta de fevereiro e março, quando se espera uma pressão maior da safra brasileira e um aumento nas importações do Mercosul”, prevê o analista. Tradicionalmente, o mercado recua para os níveis de paridade de exportação nesse período, finaliza.

     

    RETROSPECTIVA ALGODÃO: Mercado doméstico teve queda nos preços com maior oferta em 2023

    Os preços do algodão caíram no mercado físico brasileiro em 2023. A queda começou bem antes da chegada da safra 2023, em agosto. A quebra na safra em 2022 e as especulações com seca nos Estado Unidos fizeram o produtor redobrar a aposta de alta nos preços, dosando suas vendas no início da temporada 2022/2023, informou a SAFRAS Consultoria.

    Segundo o analista de SAFRAS & Mercado, Gil Barabach, o fato de o algodão estar mais capitalizado acabou facilitando a estratégia de restringir o fluxo de comercialização. Porém, a menor oferta no Brasil e nos Estados Unidos foi compensada pelo crescimento da safra em outras importantes origens. “Além disso, houve um corte no consumo, em resposta ao cenário econômico incerto e a maior concorrência de produtos sintéticos. Os preços acabaram caindo lá fora, ativando o interesse do produtor aqui dentro. A cotação do algodão no físico brasileiro acumulou forte desvalorização ao longo do primeiro semestre de 2023 (entressafra por aqui) diante da pressão da oferta disponível da safra BR-22 e da iminência de chegada de uma grande produção em 2023”, disse o analista.


    O preço do algodão em pluma iniciou o ano de 2023 mais valorizado, em torno de R$ 5,16 a libra-peso no Mato Grosso e R$ 5,30 a libra-peso dentro da indústria em São Paulo. Mas, a partir de março tombou diante da mudança brusca de comportamento do produtor brasileiro. Com o avanço da entressafra e a recuperação na ICE US, esboçou alguma reação. Mesmo assim, não conseguiu demonstrar força para sustentar ganhos mais expressivos. De acordo com Barabach, a safra grande e a necessidade de escoamento externo servem como fatores que inibem as investidas de alta, mesmo com o avanço da entressafra.

    E, com isso, o preço do algodão em Rondonópolis, em Mato Grosso, gira em torno de R$ 3,74 a libra-peso nessa reta final de dezembro. No ano, acumula desvalorização de 29%. Já a indicação no CIF de São Paulo da pluma ficou ao redor de R$ 3,98 a libra-peso. Neste mesmo período do ano passado, a pluma era cotada a R$ 5,19 a libra-peso, o que corresponde no acumulado uma queda de 26%.

    Na cena externa, a agressividade do vendedor brasileiro ficou bem clara no comparativo de prêmio no porto de Santos. O algodão brasileiro negociado no FOB Santos neste mesmo período do mês de novembro ficou a -5 centavos contra ICE US. Ou seja, com prêmio negativo (deságio em relação ao referencial de Nova York). Essa agressividade do algodão brasileiro atraiu demanda, especialmente da China. Porém, nos últimos meses, Barabach mencionou que o Brasil perdeu um pouco de competitividade para o Paquistão e os Estados Unidos, mas segue no radar do comprador mundial.

    No mês de dezembro, o prêmio indicado oscilou em torno de -1,90 centavos/libra-peso. No ano passado era vendido com elevado ágio (prêmio positivo contra ICE US) que chegou a +20 centavos/libra-peso contra ICE US.

     

    RETROSPECTIVA BOI: Ano foi marcado por abates recordes no Brasil

    O ano de 2023 foi marcado por números recordes no setor de pecuária, tanto no que tange ao abate de bovinos quanto na produção de carne no Brasil. Segundo o analista de SAFRAS & Mercado, Fernando Iglesias, esse foi um dos fatores que contribuiu para limitar avanços mais expressivos nos preços da arroba. Estimativa de SAFRAS & Mercado, levando em conta dados de inspeção federal, estadual e municipal, indica que o Brasil deve fechar o ano com abates de 34,202 milhões de bovinos, crescimento de 8% na comparação a 2022, quando foram abatidos pouco mais de 31,6 milhões de bovinos.


    Boa parte desse aumento foi determinado pelo abate de fêmeas. Iglesias destaca que essa percepção já estava presente nas análises realizadas no encerramento de 2022, uma vez que o pecuarista focado em cria já sinalizava para problemas de margem, apontando justamente para a ampliação do descarte nos meses que se seguiram. Isso de fato aconteceu, gerando um adicional de oferta que produziu expressiva queda dos preços da arroba do boi gordo. Iglesias sinaliza que a produção de carne bovina em 2023 deve atingir números históricos de 9,467 milhões de toneladas em equivalente carcaça, crescimento de 8,1% se comparado a 2022, em que foram produzidas 8,758 milhões de toneladas em equivalente carcaça.

    Exportação
    As exportações de carne bovina tiveram números mais tímidos ao longo do ano, na comparação com 2022, muito em função do declínio observado durante os três primeiros meses de 2023 por conta dos casos atípicos de vaca louca no Brasil, que levaram a uma interrupção dos embarques para a China. O analista acredita que o país deverá fechar 2023 com embarques de 3,239 milhões de toneladas de carne bovina em equivalente carcaça, decréscimo de 3% se comparado a 2022, quando foram exportadas 3,339 milhões de toneladas.

    Iglesias avalia que, com os números mais delimitados nas exportações, houve um importante aumento na oferta doméstica de carne bovina no decorrer de 2023. A disponibilidade interna deve ser de 6,27 milhões de toneladas em equivalente carcaça, crescimento de 14,59% na comparação a 2022, de 5,472 milhões de toneladas em equivalente carcaça.

    De forma geral, o analista ressalta que o ano foi marcado por um cenário de maior consumo de carne bovina pela população brasileira, o que interferiu na formação dos preços das proteínas concorrentes, como a carne de frango e a suína.

     

    RETROSPECTIVA AÇÚCAR: Clima favorável fez Brasil produzir safra recorde em 2023

    O mercado internacional de açúcar teve um ano de grande volatilidade em 2023. No dia 7 de novembro, o primeiro contrato de açúcar bruto da ICE Futures US (Nova York) foi a 28,14 centavos nas intradiárias, nível mais alto em 12 anos. As cotações subiam até então em meio a perspectivas cada vez mais pessimistas para as safras da Ásia em um ano marcado pelo El Niño, fenômeno climático que reduz as chuvas no continente asiático está afetando a produção de cana-de-açúcar na India e na Tailândia em 2023/24. Porém, com a confirmação que o Brasil está produzindo uma safra recorde em 2023/24, o mercado passou a corrigir parte dos ganhos acumulados nos últimos meses e chegou a operar abaixo da linha dos 20 centavos, mas vai fechando o ano com ganhos na comparação com 2023.


    Segundo a Companhia Nacional do Abastecimento (Conab), o Brasil está produzindo 46,88 milhões de toneladas de açúcar na safra 2023/24, crescimento de 27,4% em relação a 2022/23, com um clima favorável elevando a produtividade da cana-de-açúcar. A previsão da estatal para o total de cana moída no Brasil é de 677,602 milhões de toneladas em 2023/24 (um novo recorde na série histórica), ante 610,804 milhões de toneladas em 2022/23, alta de 10,9%.

    Já conforme a União da Indústria da Cana-de-Açúcar (Unica) a moagem de cana entre o dia primeiro de abril e a primeira quinzena de dezembro atingiu 638,39 milhões, ante 539,58 milhões de toneladas registradas no mesmo período no ciclo 22/23, avanço de 18,29%. Já a fabricação de açúcar totalizou 41,75 milhões de toneladas neste mesmo período, contra 33,35 milhões de toneladas do ciclo anterior, aumentando 25%.

    As produtividades acumuladas da cana se mostraram muito superiores às da temporada anterior (2022/2023), com destaque para as regiões de Araçatuba (37,8%) e São José do Rio Preto (26,9%), em São Paulo, de acordo com dados do Centro de Tecnologia Canavieira (CTC). No acumulado de abril a novembro, a média da produtividade dos canaviais do Centro-Sul cresceu 20,4% em relação a igual período da safra anterior, para 88,1 toneladas por hectare, superando em 15 toneladas por hectare o índice de 2022/2023. No mês de novembro, a produtividade cresceu 11,4% nesta safra em relação à anterior, alcançando 78,6 toneladas por hectare, segundo o CTC.

    A qualidade da matéria prima (ATR) caiu no mês de novembro em praticamente toda a região Centro-Sul, exceção de Goiás e Mato Grosso do Sul. As possíveis razões para essa queda são o atraso da colheita e o aumento das chuvas.

     

    RETROSPECTIVA FRANGO: Ano deve registrar recorde de produção e exportação

    A avicultura registrou um 2023 único, com marco de novos recordes e desafios para os produtores. De acordo com o analista de SAFRAS & Mercado, Fernando Henrique Iglesias, até o início do segundo semestre, o ano foi pautado por um alojamento recorde e exportações extremamente agressivas de carne de frango.

    Iglesias afirma que o setor tinha uma perspectiva favorável para a exportações neste ano, que de fato se confirmou. "O que acabou prejudicando o resultado nisso tudo foram os preços pagos pela carne de frango no mercado internacional, que não foram bons. Não foi possível observar uma elevação e, com isso, as cotações ficaram mais baixas se comparadas com 2022", explica.


    Os preços mais baixos impactaram na receita de exportação, que cresceu menos de 2%. O volume, por sua vez, cresceu de 9% a 10%. Iglesias ainda pontua que o Brasil deve bater o recorde de exportação em 2023, faltando apenas os números de dezembro para serem consolidados. Iglesias ressalta que essa larga produção deve continuar em 2024. Neste segundo semestre, foi possível observar um alojamento de pintinhos de corte mais comedido, em função justamente da adequação e ajuste da produção.

    "O setor conseguiu sair de uma crise muito grave, que vivia com margens muito negativas até o terceiro trimestre do ano. O corte no alojamento foi útil justamente para acomodar as expectativas em relação a preços, permitindo uma melhora nas cotações e, consequentemente, das margens", destaca.

    Para o primeiro semestre de 2024, o analista estima que o alojamento deve seguir discreto, pois será um período difícil em relação ao abastecimento de milho. Por outro lado, o Brasil deve seguir como melhor alternativa para fornecimento global de carne de frango. "É nítido. Mesmo com a presença da gripe aviária no país, isso não deve mudar", afirma.

    Por fim, Iglesias diz que o mercado continuará caminhando para exportar bons volumes em 2024. "Será difícil repetir os números deste ano, até porque tivemos um mês de março muito fora da curva, onde exportamos mais de meio milhão de toneladas de carne de frango. Não é tão simples assim repetir estes números", disse. "Terá um pouco mais de carne de frango disponível, mas não chegará a ser algo fora do normal, crescendo a disponibilidade interna entre 1% e 2%", conclui.

     

    RETROSPECTIVA MILHO: Ano marcou saída definitiva dos problemas causados pela pandemia

    O ano de 2023 foi marcado pela saída definitiva dos problemas causados pela pandemia de covid-19. De acordo com o analista de SAFRAS & Mercado, Paulo Molinari, o excesso de preços nas commodities registrados ao longo de 2022 ofereceu espaço para uma reacomodação, mesmo que ainda em patamares acima dos níveis históricos.


    Segundo Molinari, com a regularização da distribuição internacional, mesmo com a continuidade da guerra na Ucrânia, o fluxo de mercadorias foi reestabelecido e o abastecimento global também. Assim tanto insumos quanto grãos puderam voltar a ter um fluxo mais rápido de atendimento da demanda. O analista ressalta que nem mesmo as perdas recordes na safra de milho na Argentina e uma pequena perda na produção nos EUA foram suficientes para evitar uma acomodação de preços internacionais.

    É importante salientar a difícil situação da economia chinesa, o dólar forte e a demanda se realinhando com juros altos. Esses fatores pesaram também no mercado de commodities. Primeiro semestre foi marcado pela perda de força nos preços do milho.

    Altos e baixos
    O analista relembra que o começo de 2023 foi marcado por preços do milho bastante altos no ambiente internacional, com a Bolsa de Chicago operando acima de US$ 6,00 por bushel e o mercado interno com valores entre R$ 85,00 a R$ 90,00 por saca, oferecendo boas condições de preços. Mas uma safra recorde de soja no Brasil forçou a busca pelo espaço na logística e as cotações do milho acabaram sendo pressionadas por um movimento de venda por parte dos produtores. “Este fator iniciou um processo de baixas internas no milho, que culminou com a entrada de uma safrinha recorde e mais pressões de venda por espaço na logística”, destaca.

    Molinari comenta que ainda havia a questão de clima nos Estados Unidos. Após o tradicional ciclo climático no Meio-Oeste, os preços na Bolsa de Chicago também cederam com a colheita norte-americana e o mercado interno brasileiro viu uma queda de preços de quase 50% em relação a 2022. "Pode-se dizer que a primeira metade do ano foi marcada por um ajuste de preços diante da chegada de safras recordes", pontua.

    Com safrinha recorde, Brasil focou na exportação no segundo semestre para escoar excedentes O Brasil, com uma colheita recorde de milho safrinha, de quase 100 milhões de toneladas, procurou a exportação como alternativa de escoamento dos excedentes e o tom do mercado interno foi o preço dos portos. Após embarques tímidos no primeiro semestre, o país aproveitou o espaço deixado pela Argentina, após a quebra na safra, e passou a atender uma demanda adicional que não foi preenchida pelo país vizinho.

    Com a reacomodação dos preços da Bolsa de Chicago para US$ 4,50 por bushel, diante de uma safra muito positiva nos Estados Unidos, mesmo com problemas de clima, os preços nos portos no Brasil também recuaram e pressionaram as cotações internas. No que tange à Ucrânia, mesmo com a manutenção da guerra com a Rússia, o país procurou caminhos alternativos de escoamento da produção e seguiu exportando bons volumes de milho e trigo.

    Já os Estados Unidos, com dificuldades no calado do Rio Mississipi, apresentaram um início difícil nas exportações. Porém, com a redução nos embarques pelo Brasil no fechamento do ano, as vendas dos EUA começaram a se recuperar.

    Mesmo assim, Molinari afirma que o Brasil deve finalizar o ano com exportações elevadas, de 53,945 milhões de toneladas, tendo como principal destino a China, ainda que o país asiático deva colher uma safra recorde.

     

    RETROSPECTIVA CAFÉ: 2023 positivo nos preços aos produtores, com NY acumulando alta próxima a 20%

    O mercado internacional de café teve um ano de 2023 de altas expressivas nas cotações, tomando por base o arábica na Bolsa de Nova York (ICE Futures US), que baliza a comercialização global. Os bruscos e intensos movimentos para cima e para baixo nos preços em NY, como os observados em dezembro, foram uma característica em 2023.

    Segundo o consultor de SAFRAS & Mercado, Gil Barabach, a transição de um período de baixo potencial produtivo brasileiro por conta de geada e seca, que caracterizou as safras brasileiras 2021 e 2022, para outro de safra cheia como a colhida esse ano, não está acontecendo de forma tão natural e linear, como o esperado. "O mercado vem passando por sobressaltos, diante de dúvidas produtivas. Talvez, o fato de ter saído de 3 anos seguidos de La Niña para ficar imediatamente sobre a atuação do El Niño justifique toda a insegurança produtiva", afirmou o consultor.

    Ele ressaltou que o El Niño de 2023, apesar de ser medido como moderado, apresenta episódios severos, como os bolsões de calor extremo observados no Brasil. "E isso fatalmente traz à memória do produtor o ano de 2016, quando a safra de café do Brasil foi afetada negativamente, especialmente o conilon do Espírito Santo", comentou. O café arábica na ICE US iniciou 2023 cotado em torno de 165 cents. Mas o otimismo produtivo, com as chuvas no início do ano no Brasil, elevou a pressão vendedora e derrubou os preços em NY a 145 cents, avaliou Barabach. "Na sequência, o mercado acabou corrigindo exageros de baixa, além de pegar carona em impulsos financeiros de alta, como a expectativa do Fed (Banco Central americano) iniciar o ciclo de corte dos juros ainda no segundo semestre de 2023, o que acabou não se confirmando", apontou.

    Tudo isso fez o café voltar a se aproximar da linha de 200 cents na bolsa nova-iorquina. Porém, Barabach indicou que este movimento de alta era frágil e sustentado em um financeiro instável. "E o mercado acabou sucumbindo à forte pressão sazonal, com o avanço da safra brasileira 2023 a partir do mês de maio. O aumento na oferta veio acompanhada pelo maior interesse em negociar dos produtores brasileiros, mal vendidos na entrada da safra, o que acabou gerando pressão adicional contra as cotações da bebida", analisou Barabach.

    Neste ponto, destacou o consultor de SAFRAS, o café voltou a ameaçar a linha de 145 cents na ICE US, que foi um denso fundo gráfico, testado e respeitado por duas vezes ao longo do ano de 2023. O consultor de SAFRAS observou que, depois de desenhar esse fundo, o mercado deu outra guinada de alta, tendo como gatilho inicial o avanço da entressafra e a postura mais curta dos vendedores.

    "Este movimento ganhou intensidade, apoiado em antigos e novos fatores. O conflito no Oriente Médio e a alta no petróleo, bem como, o tombo nos estoques certificados na ICE US estão entre as novidades. Muito embora os baixos estoques certificados em NY já tivessem mexido positivamente com os preços no início de 2023", ressaltou.

    A flutuação cambial, frente à queda no dólar, serviu de estímulo aos ganhos da bebida no mercado internacional. Para Barabach, entraram no radar também as dúvidas produtivas em relação à safra brasileira 2024, diante do registro de produtores de queda acima do normal de chumbinhos nas lavouras de café do Brasil.

    Efeito da altas temperaturas ocasionadas pelo El Niño, que também trouxe problemas à safra de robusta do Vietnã, que perdeu produtividade. "Com isso, a oferta de robusta deve diminuir. Já na Colômbia e na América Central a situação climática segue favorável ao andamento dos trabalhos de colheita", comentou. O mercado começou a precificar a preocupação com a oferta, avaliou o consultor de SAFRAS.

    E o preço do café em NY acentuou o rally, impulsionado mais recentemente também por fatores técnicos de alta. Assim, a bebida voltou a ser negociada nessa reta final de 2023 a 200 cents na ICE US. Mas, diante dos sinais de sobrecompra, o mercado passou por alguns ajustes. Porém, ainda sustentando boa parte dos ganhos e ainda próximo dessa linha de US$ 2,00 a libra.

    O café acumula valorização de expressivos 19% no contrato março em NY até o dia 27 de dezembro. "Um outro ano positivo para o produtor de café, especialmente considerado o contexto de recuperação na produção de arábica no Brasil e um fluxo de compra da indústria mundial mais lento e compassado", concluiu. Os preços no Brasil ao produtor para o arábica bebida boa estão batendo na faixa de R$ 1.000,00 a saca, patamar mirado por muito tempo pelos cafeicultores.

     

    Com informações de SAFRAS & Mercado