Com a palavra, Ana Kreter

Conheça a professora e pesquisadora do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada e da Universidade de Rhine Waal, na Alemanha, para os cursos de agricultura sustentável e agronegócio

Diversidade

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“Eu nasci no Rio de Janeiro e morei um ano na Alemanha, pois meu pai trabalhou como pesquisador visitante no KFK, dentro do acordo nuclear Brasil-Alemanha. Finalmente, em 1981, nós mudamos para Resende (RJ). Somos três irmãos e eu sou a do meio, mas apesar disso fui a primeira a sair de casa. Em 1990 eu me mudei para São José dos Campos (SP), de forma precoce, ainda novinha, para morar em uma pensão de meninas e estudar em uma Escola Técnica.”

“Eu fiz Eletrônica porque gostava de matemática e isso foi muito bom, porque descobri que esta não era a minha praia (risos). Conclui o curso, mas não tive vontade de continuar nesta área. Ainda no Ensino Médio, fiz a primeira incursão internacional, participando de um intercâmbio e morando por um ano nos EUA, na Califórnia.”

“Após me formar e concluir o estágio em Resende, mudei para o Rio de Janeiro, onde fui estudar economia na Universidade Federal Fluminense. Por influência de um professor, cursei História em paralelo. Esta foi aquela primeira etapa que tive na vida, de ter um trabalho na área de pesquisa. Logo depois consegui outro estágio de pesquisa, mas na Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan).”

“Só que abriu uma vaga no Ipea e eu não pensei duas vezes. Claro que financeiramente não era o melhor, mas eu tinha muita vontade de ir para um instituto de pesquisa mesmo e não de trabalhar dentro de um departamento de pesquisa de uma outra instituição.”

“Foi assim que comecei a minha caminhada para a pesquisa. No Arquivo Nacional eu tive um pouco aquela coisa de Indiana Jones, de tentar descobrir e tabular as informações. Mas quando caí em uma pesquisa voltada para a Economia, e foi no Ipea, aí sim, a cabeça abriu.”

DIVIDINDO ÁGUAS
“Na graduação eu tive uma cadeira de Economia Agrícola e achei superinteressante, pois caiu a ficha de que as pessoas jamais poderiam ter uma vida sem alimentos. Este pensamento aguçou o meu interesse no tema.”

“Ainda na graduação, fiz um ano de intercâmbio na Alemanha, com o chamado “sanduíche” pelo DAAD (departamento alemão para estudantes estrangeiros) na Universidade de Tübingen. Coincidiu de ocorrer um congresso internacional na minha área em Berlin. Eu trabalhei seis meses como faxineira num hospital para ir sem a ajuda dos meus pais ao tal do congresso! Eu estava conseguindo criar a minha independência a partir de uma vivência fora do Brasil.”

“Na volta para o Brasil, participando de uma pesquisa do MDA sobre o Pronaf, eu fiquei responsável pelos assentamentos do Estado de São Paulo. Tive de novo contato com esta outra realidade e ficou claro que se eu não passasse na seletiva do mestrado, iria voltar para uma região como aquela e trabalhar com desenvolvimento regional. No pontal do Paranapanema, por exemplo, eu visitei propriedades em que o solo era praticamente só de areia. E eles conseguiam produzir abóbora, batata e outras culturas.”

“Durante esta viagem, soube que havia passado para o Mestrado em Ciências, área de concentração: Economia Aplicada, pela Esalq/USP. Fui para Piracicaba arrumar um lugar para morar e começar uma nova etapa da minha vida. Foi aí, mais a conclusão do TCC, que eu entrei de cabeça no Agro, mas sem saber exatamente aonde eu iria chegar.”

“Quando olho para minha juventude e a primeira fase de vida adulta, não me vejo como uma figura brilhante, muito pelo contrário. Eu não vim pronta! Nunca fui aquela pessoa tipo ‘deu tudo certo’, ou ‘aprende fácil’. Não. Além da insegurança de adolescente eu também me lembro de ficar horas correndo atrás das oportunidades. Tudo o que eu consegui foi com muito esforço!”

“Em um país tão desigual como o Brasil, eu me sinto privilegiada por tudo que meus pais me deram. Se sou o que sou hoje, foi por eles. Pelo apoio, por estarem sempre ao meu lado e por terem me mostrado este caminho, afinal, meu pai também foi um pesquisador apaixonado pelo que fazia.”

DEGRAUS
“O curso em Piracicaba foi muito difícil. A metodologia de avaliação impunha um espírito de competição que eu nunca havia vivido e aquilo me marcou muito. Inclusive pelo fato de eu ser carioca e ‘cair de paraquedas’ na Esalq. Esta foi uma fase em que pratiquei muita atividade física para compensar o medo de não dar certo e de eu não terminar o mestrado.”

“Eu ainda não havia defendido minha dissertação na Esalq e já comecei um trabalho na UFF. Ali foi uma experiência que não era no Agro, mas era o que me sustentava. Comecei também a restabelecer meus contatos, inclusive no próprio Ipea.”

“No Ipea, trabalhei para um pesquisador sênior,  Gervásio Castro de Rezende, a quem gostaria, inclusive, de prestar uma homenagem especial. Ele foi uma pessoa maravilhosa em minha vida. Inclusive foi meu professor na UFF. Mas, no Ipea, ele tinha uma expertise e recebia vários convites para escrever artigos e capítulos de livros, além da nossa publicação trimestral, a seção de Política Agrícola do Boletim de Conjuntura. Era uma visibilidade muito grande e ele sempre fazia questão de me colocar em todos os projetos. Foi uma relação de confiança, respeito e de muitas oportunidades. Participamos de um livro do Delfin Neto e escrevemos artigos para a Fundação Adenauer, além das matérias especiais feitas sobre o setor.”

“Esta passagem de minha vida, com o apoio do Gervásio, foi um marco por três fatores. O reconhecimento técnico, o reconhecimento financeiro e o aprendizado contínuo. Fui com ele até o fim de sua carreira e, ao final desta fase, eu me senti uma pesquisadora pronta”.

DE CAPÍTULO EM CAPÍTULO
“Mais segura, resolvi me candidatar para o doutorado. Também foi nesta época que conheci meu marido, que é alemão. Eu fazia as cadeiras na UFF, trabalhava no Ipea e havia retornado ao curso de História, à noite. Consegui uma bolsa do DAAD para fazer o doutorado sanduíche na Alemanha e fiquei lá por 14 meses. Eu já estava com meu marido, ainda não éramos casados, mas tudo isso me fez pensar se voltava, ou não, para o Rio.”

“Meu marido é advogado e não estava propenso a vir para o Brasil. O relacionamento já durava quatro anos e vim ao Brasil, defendi o doutorado, organizei a documentação e voltei para a Alemanha, onde me casei em 17/12/2010. A partir daí eu comecei uma nova fase em minha vida. Eu tive que fechar os olhos para a realidade acadêmica que o Brasil vivia na época e hoje eu entendo que isso foi estratégia positiva. Foi difícil demais me estabelecer profissionalmente no início na Alemanha. Eu continuei vinculada aos grupos de pesquisa no Brasil, sem financiamento, mas para me manter em atividade. Por aqui as coisas não são tão simples assim. A minha primeira angústia foi ter que esperar muito tempo para validar meus diplomas. E aí começou minha via crucis,”

“Com o passar do tempo, consegui o primeiro contrato de trabalho na Alemanha e foi junto à Cruz Vermelha de Düsseldorf, como cuidadora de idosos, no Serviço Social. Este foi um grande aprendizado em minha vida. A Cruz Vermelha foi uma grande escola. E por mais que eu tenha descendência alemã e seja casada com um alemão, eu sou uma estrangeira por aqui. Mas, eu fiquei lá até me estruturar financeiramente e, a partir daí, resolvi abrir uma empresa.”

“Foi difícil, é claro, mas comecei a prestar serviços nas feiras de negócios, principalmente em tradução simultânea e produção de eventos, com apoio de Iramaia Kotschedoff, outra brasileira empresária. Nesta mesma época comecei a fazer o Pós-doutorado na Unioeste, no campus de Toledo, no Paraná. Desta conexão surgiu uma tarefa que me levou a trabalhar na construção de um acordo de cooperação entre uma instituição alemã e a própria universidade. Neste processo, que durou dois anos, construí novas oportunidades de trabalho. E foi assim que, em 2017, me tornei professora assistente na Universidade de Ciências Aplicadas Rhine Waal,  no campus em Kleve, Alemanha.”

“Desde então, ministro a disciplina Desenvolvimento Rural para os cursos de Agricultura Sustentável e de Agronegócio. Adoro o que eu faço! E nesta mesma universidade eu já tive contratos de pesquisadora que cheguei a representar a instituição na Comissão Europeia, em Bruxelas, e através dos quais aprendi a fazer projetos para consórcios internacionais.”

“Também em 2017, a Diretoria de Macroeconomia do Ipea retomou os estudos específicos para o Agro. As conexões foram reestabelecidas e fui contratada para atuar, novamente, na mesma área em que havia atuado anteriormente. No Brasil, não estamos acostumados a escrever sobre o Agro para um público internacional. Então, conversei com o Diretor José Ronaldo Souza Júnior e ele concordou em passarmos a fazer também uma publicação em inglês. Desde agosto de 2019, publicamos o Brazilian Agricultural Outlook, em parceria com a CONAB. Nessa mesma linha de atuação, também escrevo artigo para o Globo Rural regularmente.”

“Meu maior desafio, morando fora do Brasil, é de apresentar o meu País para um público não lusófono. O Agro brasileiro precisa sair da defensiva e se comunicar de forma mais prospectiva. Por isso, reestruturamos nossos produtos para publicações regulares mais sintéticas para que possamos dialogar com o público do exterior. Este é o meu grande desafio.”

Leia o artigo completo no site da Rede UMA: https://umaportodas.com.br/noticias/parabens-por-serem-resilientes-e-por-nos-representarem/



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