Com a palavra, Edina e Ana Franciosi

As irmãs Edina e Ana Franciosi são - ao lado da mãe, Maria Cappelletto Franciosi - protagonistas de um grande exemplo de gestão feminina no agronegócio em Mangueirinha, Sul do Paraná

Diversidade

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ANA FRANCIOSI


“Nossa propriedade está na família desde 1974 e eu passei toda a infância e adolescência na fazenda. Durante um período, nós morávamos aqui na fazenda Capão Redondo, com luz a gerador e esta era uma época com poucas facilidades. Para ir até as cidades mais próximas, Palmas e Mangueirinha, a estrada era de chão. Era tudo totalmente diferente do que é agora aqui no Paraná.”


“Mesmo quando passamos a morar na cidade, íamos todo final de semana para a fazenda. Tive uma infância no campo, com a liberdade de trazer os amigos para passar um final de semana ou um feriado. Para nós, morar na fazenda era uma grande aventura, uma grande brincadeira.”


“O meu pai (Luiz Edino Franciosi) fazia com que cada filho tivesse a sua galinha, o seu bezerrinho, a sua ovelhinha e esta era uma forma de estimular os filhos a ter a responsabilidade de cuidar destes animais, de tratá-los desde muito cedo. Durante o plantio e a colheita, eu acompanhava todo o processo.”


 

MÉDICA VETERINÁRIA


“Fiz cursinho em Curitiba e, na sequência, fui aprovada no Vestibular de Medicina Veterinária da UFPR, onde me formei. Fui aprovada em um concurso público para o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento – MAPA, no cargo de Fiscal Federal Agropecuário. Trabalhei um tempo em Florianópolis (SC) e, depois, fui trabalhar no Porto de Paranaguá e ali eu fiquei alguns anos na inspeção e vigilância agropecuária, onde adquiri uma experiência muito boa, principalmente na área de legislação. Foi muito importante passar por este aprendizado antes de assumir diretamente a gestão aqui da fazenda.”


“Com o falecimento do meu pai, em 2005, eu e minha irmã, Edina Franciosi, precisamos assumir a fazenda e, neste momento, nós passamos por alguns desafios. Nós precisávamos alinhar todo o processo de transição, sendo que não tivemos uma sucessão planejada. Foi tudo bem difícil, até mesmo dentro da família, para decidir como tudo seria feito. Além de minha mãe e minha irmã, que trabalhamos juntas, temos dois irmãos mais velhos e, até fazer estes ajustes, demorou-se um tempo. Neste movimento, o nome da antiga Fazenda Capão Redondo ficou com um dos irmãos. O empreendimento rural feminino da nossa família assumiu o nome de Fazenda Alvorada.”



CORAÇÃO FALA MAIS ALTO


“Chegou um momento em que tive que decidir. Ou eu continuava em Paranaguá, ou assumia a fazenda. De um lado, a estabilidade de um cargo público. Do outro, a vontade de seguir o que minha família sempre fez. Neste momento o coração falou mais alto, pois era um recomeço, não havia maquinários nem estabilidade direito. Eu tinha as minhas reservas financeiras, mas foi um recomeço praticamente do zero.”


“Nós decidimos que iríamos seguir o legado do nosso pai. A partir daí, eu, minha irmã e nossa mãe seguimos em frente. Fui aprendendo a cada dia, colocando a mão na terra, entendendo com funciona cada equipamento, regulando plantadeira, descobrindo a cada dia uma coisa nova, conversando com técnicos e pessoas mais experientes… Este foi nosso começo desafiador”.


 

PENSANDO NO FUTURO


“A cada ano fomos experimentando diferentes situações, fomos melhorando a qualidade das máquinas aos poucos e, agora, já estamos na gestão direta da propriedade desde 2007. De lá para cá, muita coisa mudou em nossas vidas e também mudou a maneira de trabalhar, bem como a tecnologia. Hoje, sou grata em poder dizer que nós conseguimos evoluir e que procuramos isso cada vez mais. Nós seguimos produzindo sempre, preservando muito o meio ambiente, atuando de forma sustentável e trabalhando de forma correta e prazerosamente”.


“Tenho dois filhos, o Guilherme e a Carolina, e os dois estão acompanhando desde cedo o plantio e a colheita, eles gostam muito de participar e estão sempre comigo. Aquilo que o meu pai fez comigo eu procuro passar para eles, que é ensinar desde cedo como funciona tudo isso.”


 

MULHERES DO AGRO MANGUEIRINHA


“O Grupo Mulheres do Agro Mangueirinha era um sonho antigo nosso, pois havia sempre aquela questão de que se existiam mais mulheres à frente de propriedades, tal como nós. Sempre que participávamos dos cursos, das palestras e das reuniões na cooperativa, só víamos uma ou outra mulher. Nós não conseguíamos ver tantas mulheres inseridas neste meio.”


“Foi então que pensamos: Se criássemos um grupo de mulheres poderíamos, aos poucos, ir nos juntando, nos unindo, indo aos eventos, às feiras… Surgiu uma viagem com a cooperativa com a qual trabalhamos, a Coamo Agroindustrial Cooperativa, e fomos conversando com uma e com outra. Elas acharam uma ótima ideia e partimos para montar um grupo de 8 a 10 mulheres para ver no que iria dar. E foi assim que surgiu o Grupo Mulheres do Agro Mangueirinha. Logo após o primeiro encontro do grupo o número de mulheres que solicitou acesso já surpreendeu. Nos dias de hoje elas já são mais de 85.”


“O Grupo foi fundado em 2018. Nós criamos um perfil de Instagram, que movimentamos com informações, mensagens e fotos. O grupo se tornou conhecido e, a partir dele, já tivemos oportunidades de viagens, por exemplo. O importante é que, como aumentou o número de cursos direcionados para mulheres, nós passamos a ter mais cursos e também aproveitarmos melhor nossas idas à reunião na cooperativa.”


“Mas, o que eu acho mais importante é que nós acabamos nos conhecendo melhor. Aquela sensação lá do início, em 2007, de uma estranheza em relação à mulher trabalhar na fazenda, percebo que agora é uma coisa bem mais natural.”



EDINA FRANCIOSI


“Eu gosto muito de começar minhas lembranças lá atrás, pois nós somos uma família de descendência italiana, meus bisavós vieram da Itália e eles já eram agricultores. Vieram fugindo da fome. Eles foram para o Rio Grande do Sul e se instalaram nas colônias italianas, falavam italiano e meus pais também o falaram até a juventude. Meu avô paterno foi Antônio Franciosi e o avô materno era Guilherme Cappelletto.”


“Quando eu nasci, meus pais, Luiz Edino Franciosi e Maria Cappelletto Franciosi, já estavam aqui no Paraná. Eles foram para Curitiba em 1968, mas compraram a fazenda e vieram para Mangueirinha em 1974 e fundaram a Fazenda Capão Redondo. Eu tive minha infância nesta fazenda. A gente brincava e tinha muita liberdade.”


 

ARQUITETA


“Fiquei no interior até a adolescência e, com meus irmãos que eram mais velhos, fomos pra Curitiba estudar. Lá eu fui para a escola e comecei a me direcionar mais para a parte do desenho. Sempre gostei de desenhar e fiz curso técnico de Desenho Industrial e, depois, cursei a Faculdade de Arquitetura na PUC-PR. Isso foi nos anos 2000. Durante a faculdade surgiu a oportunidade de fazer um intercâmbio. Houve um concurso, fui classificada e passei um ano em Paris estudando Arquitetura. Tudo estava direcionando para esta área.”


“Quando terminei a faculdade, fiz especialização em Meio Ambiente e Políticas Públicas. E foi aí que eu comecei meio que voltar, sabe? Começou a vir este desejo de retorno para o interior. E, com o falecimento do meu pai em 2005, nos reunimos entre os irmãos e decidimos que era o momento de voltar e assumir a fazenda.”


 

RETORNO ÀS RAÍZES


“Foi então que eu e minha irmã decidimos assumir, juntamente com nossa mãe. Em 2007, retornamos para cá e retomamos com a agricultura, depois de tanto tempo! E, desde que cheguei aqui já senti vontade de encontrar mulheres que trabalhassem na mesma área. E não tinha… Nós éramos vistas como diferentes nas palestras técnicas e nos dias de campo. Ainda mais que viemos de Curitiba! (risos) Éramos mulheres, jovens e viemos da capital para o interior. A gente escutava que ‘não ia aguentar’, ‘não ia durar’ e que isso seria momentâneo. Mas, graças a Deus, eu nunca dei bola para este tipo de comentário.”


“A vontade de formar um grupo aumentava com o passar do tempo, mas eu quase não via outras mulheres. Com o tempo elas foram aparecendo muito devagar, aos poucos, uma que ficou viúva, outra que assumiu a propriedade do pai… Mas, ainda de forma muito discreta.”



UNIÃO FEMININA


“A formação do grupo aconteceu depois de 12 anos que já estávamos atuando na agricultura. Inicialmente foi de forma bem despretensiosa, mais para conhecermos outras mulheres para trocar informações ou até mesmo conversar sobre o plantio e sobre o tempo. Aquilo que vemos entre os homens conversando na Cooperativa, ali no cafezinho… E foi aí que surgiu a ideia de formar o grupo, até porque vimos que em outras regiões as mulheres estavam se organizando em grupos e nos inspiramos nisso! Surgiu o Grupo Mulheres do Agro de Mangueirinha.”


“A partir do momento em que nós começamos a fazer os encontros, reafirmamos o que desde o início era a nossa intenção, de um grupo muito democrático, livre e leve. Participa quem quer, não é cobrada a participação, pois temos três valores no Grupo: União, Conhecimento e a Valorização, que será o resultado dos dois anteriores.” 


“Temos parceria com a Coamo Agroindustrial Cooperativa e todos os encontros iniciam com uma palestra técnica, com um tema de demanda, que as mulheres solicitam. Normalmente, enquanto a palestra está acontecendo, a gente fica em uma roda de chimarrão e é um momento super gostoso. E depois a gente faz um café que é aquele outro momento em que se troca ideias e o tema da palestra já surge nos comentários. Ao mesmo tempo é uma oportunidade de encontro, de alegria e de amizade.”


“Não só para as mulheres, mas para os agricultores em geral, é fundamental participar de tudo o que possa nos agregar conhecimento. O Agronegócio está evoluindo muito e a gente precisa acompanhar esta evolução e esta tecnologia toda. São variedades de sementes, produtos novos, manejo biológico, manejo de pragas, uso de químicos que sejam adequados e, também, o estudo de nossa região.”


“Muitas vezes a gente vai em eventos e vê muitas coisas que não vão funcionar aqui. Por isso é muito importante ter este discernimento, acompanhar as tecnologias e tudo o que está acontecendo no Agronegócio, mas as regiões são muito específicas! A nossa é mais fria, de mais altitude, ou seja, ela é diferenciada e cada uma vai ter as tecnologias mais apropriadas.”


“Com a formação do Grupo, a gente constatou que muitas mulheres já trabalham no Agro, Mas, estão muito discretas. São mulheres que estavam invisíveis. As mulheres devem se expor mais, devem mostrar mais os seus resultados e ir atrás deste conhecimento mesmo! É por isso que o Grupo Mulheres do Agro Mangueirinha privilegia a busca pelo aprendizado e pela troca de informações.”



SOJA DE ALTITUDE


“Quando a gente chegou aqui na fazenda de volta, o nosso dia a dia era basicamente aprender a plantar. Eu, arquiteta, e minha irmã, veterinária. por mais que tivéssemos um amor muito grande pela terra e pela infância que tivemos, pelas férias na fazenda, a gente precisava do conhecimento técnico! Precisava aprender a plantar e a agricultura vai mudando muito rápido, também. As coisas evoluem muito rápido. Era o dia todo na fazenda e participando de toda a prática, aprendendo a dirigir trator e, eu que sou muito curiosa, aprendendo todo o funcionamento da plantadeira e da colheitadeira… Falar com agrônomos e técnicos e saber mais da parte financeira e contabilidade, também. Na verdade, sempre buscando conhecer um pouco de tudo. Eu sempre fui de ler bula de produtos, ir atrás na Internet e buscar a troca de informações”.


“Um dos principais valores que temos aqui, tanto eu como minha irmã, estão diretamente ligados à conservação do solo, a preservação das águas e das florestas. Temos todo esse cuidado para que tudo fique da maneira que gostamos.”


“Nós estamos em uma altitude de 1.000 metros. Produzimos duas safras diferentes por causa do clima. A safra de verão é com soja e milho, para rotação de cultura. Fazemos também a safra de inverno com aveia, trigo e cobertura para o solo. O interessante é que, devido ao nosso clima, produzimos soja para multiplicação, nós produzimos sementes. Quase 100% de nossa produção é para sementes. Os grãos que estamos produzindo aqui, nesta safra, serão plantados e germinados nas terras de outros produtores, Brasil afora, na próxima safra. E isso é muito gratificante para nós”. 


*Os artigos completos podem ser lidos no site da UMA:


https://umaportodas.com.br/noticias/ser-mulher-do-agro-e-natural-faz-parte-da-minha-essencia/


https://umaportodas.com.br/noticias/busque-conhecimento-e-autoconhecimento/


 

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