Com a palavra, Mayra Midori Furihata

Conheça a engenheira agrônoma, com Mestrado em Ciências do Solo, cujo negócio de família são maçãs. Tanto, que já deu até aulas no pomar

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“Meu avô veio do Japão em 1957, aos 20 anos, com uma mala e um dicionário embaixo do braço, sem ter sequer um conhecido aqui no Brasil. Ele veio de lá porque fez escola agrícola no Japão e, nesta escola, ele aprendeu que aqui no Brasil existe um dos solos mais férteis do mundo, que é a ‘terra roxa’. Ele veio em busca de um sonho.”

 

“Meu avô se chamava Mutsuo Furihata e se instalou primeiramente no Paraná, vindo da cidade de Nagano. Ele buscava produzir uvas. Mas, seu sonho era mesmo produzir maçãs em Santa Catarina. Porém, este sonho quem realizou foram meus pais, Marcelino Kiyoshi Furihata e Marina Ogawa Furihata. Eles vieram para cá (SC) em 1985, trabalharam como gerentes em pomares. Depois de um tempo, meu avô e minha vó voltaram para o Japão. Lá trabalharam por dois anos e compraram o pomar para meus pais. No retorno ao Brasil se instalaram novamente no Paraná e, só em 1998, vieram para Santa Catarina.”

 

“Eu nasci em 1990 e passei parte de minha infância e adolescência junto com meu irmão Marcel Seiti Furihata, ajudando meus pais no pomar. Somos apaixonados por nosso sítio e tudo o que a gente conquistou até hoje foi com muito suor e trabalho da minha família.”

 

“O nosso plantio consiste em 12 hectares que produzem 40 toneladas por hectare de maçãs. As variedades que a gente planta são Gala e Fuji, sendo que também plantamos uns clones. A produção faz parte da SANJO – Cooperativa Agrícola de São Joaquim, que trabalha com maçãs, vinhos finos e espumantes. Por isso, a propriedade também abriga dois hectares de plantio de uva, nas variedades Moscato e Sauvignon.”

 

“Somos quatro agrônomos em uma família de quatro pessoas, todos apaixonados por agricultura desde pequenos, desde sempre. E isso certamente tem forte influência no fato de ter me tornado instrutora do ‘Curso de Supervisão Agrícola para Jovens Aprendizes”, do SENAR de Santa Catarina, desde 2017.”

 

“Neste curso eu dou instruções teóricas e práticas de toda a produção de maçãs, desde o plantio até a sua venda. A intenção é estimular estes jovens na área da maçã, que hoje é o carro chefe da economia de São Joaquim.”

 

“O curso tem ajudado muito a desenvolver novamente este interesse nos jovens, para que fiquem na cidade, pois a economia é baseada na cadeia produtiva da maçã e geralmente seus pais trabalham em pomares. Mas, eles não têm conhecimento algum sobre como funciona, quais são as etapas de plantio. É incrível ver a evolução deles e eu fico admirada.”

 

“Eu sinto que a missão foi cumprida quando vejo alguns alunos seguindo nesta direção. Além da parte teórica e prática, busco passar alguns valores a mais para esta juventude. Nós realizamos alguns projetos sociais com essas turmas, todos os anos. Empatia, respeito e amor ao próximo são temas fundamentais.”

 

“Estes projetos sociais são voltados para a área rural e envolvem arrecadações de comida e de roupas de frio para creches do interior e crianças de um abrigo existente em São Joaquim. A gente também passa a tarde com as crianças e lá fazemos algumas atividades interativas com elas, também.”

 

TRANSIÇÃO FAMILIAR ZEN

“Por conta do meu trabalho de instrutora, acabo não participando tanto da produção própria. Porém, a ideia de sucessão familiar é muito presente em nossa família desde meus avós e nós sabemos que, quando chegar a hora deles repassarem seus conhecimentos, nós estaremos aqui para ajudar, tanto eu quanto meu irmão.”

 

“A questão da sucessão, em nossa família, é uma vontade do meu pai, uma vontade minha e de meu irmão. Vamos tocar o pomar quando meu pai não desejar mais, mas para isso precisamos de um planejamento sucessório bem-feito. Isso é essencial, pois sucessão familiar envolve muitos interesses. Para dar certo é preciso ter muita união e muito diálogo de todas as partes. Também é preciso saber separar as relações familiares das profissionais, porque como a gente forma uma família de quatro agrônomos, às vezes, pode ter alguns conflitos profissionais ali.”

 

“Eu vejo que, hoje, os jovens estão cada vez menos interessados em agricultura. Aqui em São Joaquim mesmo eu vejo muitas famílias em que os pais já estão com uma certa idade e não têm ninguém que toque o pomar para eles. Os filhos já foram embora, já encontraram outra profissão e não têm mais vontade de voltar e trabalhar no pomar da família.”

 

“Meu avô ensinou muita coisa com a história de vida dele. Que quando você tem um sonho tem que ir atrás dele, batalhar duro, até conseguir conquistá-lo. Já meus pais me ensinaram muito sobre valores, que nada vem fácil e tudo vem com esforço, trabalho e competência. Ajudar a eles desde pequena me fez ter uma visão diferente sobre o que é o trabalho. Isso me fez dar mais valor aos meus pais, pois vendo meu pai indo de madrugada pulverizar maçã, minha mãe trabalhando e pegando peso, eu adquiri a noção de que tudo o que eles ofereciam para gente, alguma mordomia ou algum presente, era fruto de muito tempo e muita dedicação. E muito amor! Pois, sem amor nada dá certo.” 

 

Leia a matéria completa no site da Rede UMA: https://umaportodas.com.br/noticias/lugar-de-mulher-e-onde-ela-quiser-seja-de-salto-e-maquiagem-seja-de-chapeu-e-botina/

 

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