Com a palavra, Michelle Morais

Conheça a diretora de negócios da Duofértil, fábrica de fertilizantes NPK, e produtora rural com atividades de pecuária de corte e reflorestamento em Patos de Minas (MG)

Diversidade

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Toda história tem um começo. Como tudo começou?

MICHELLE MORAIS: Meu pai se chamava Amilton Pires de Morais e era de Divinópolis (MG). Eu já nasci em Patos de Minas (MG). Sou a caçula de três irmãs, Cynthia, Bianca e Michelle. Nossa mãe se chama Marli Rabelo de Morais, que é de Patos. Eles se conheceram aqui.
O intuito de nossos pais sempre foi manter as três filhas juntas. Três mulheres unidas. Esta foi intenção em batizar nossa fazenda com as nossas iniciais: Fazenda CBM (Cynthia, Bianca e Michelle). Eles já foram fazendo tudo no sentido de manter a união da família. Meu pai dizia que a família éramos nós cinco.
Contudo, ele sempre teve uma boa relação com sua família de origem, com suas irmãs e com nossa querida avó Aparecida, que ainda é viva e mora em Divinópolis.

 

E esse pai tão marcante e influenciador de suas filhas? Fale um pouco sobre ele.

MICHELLE MORAIS: Ele era um empreendedor muito agressivo e visionário. Entrou no ramo do Agro como vendedor de insumos agrícolas. Como excelente profissional que era, foi convidado para ser sócio de uma misturadora de fertilizantes. Posteriormente, resolveu empreender abrindo uma fábrica de fertilizantes que tinha marca própria, produzia, ensacava e entregava ao produtor rural. Depois de um período de dificuldades, ele mudou o formato do negócio para prestação de serviços para multinacionais do setor.
Como ele era muito batalhador e muito simples, tal qual nossa mãe, a criação que tivemos em casa foi sempre nos levando a fazer as coisas. Desde muito novas, nós três saímos para fazer intercâmbio, por exemplo. Eles sempre tiveram esta visão de nos incentivar a crescer e a buscar novas experiências e idiomas.
Ele também me incentivou a cursar Administração de Empresas, tal qual minha irmã mais velha, a Cynthia. Já a irmã do meio, a Bianca, fez Medicina e é Psiquiatra em Belo Horizonte. Ele faleceu em 2006 de acidente de carro, indo para a fazenda. Eu já era formada e iria completar 23 anos”.
E aí entra a figura de minha mãe, muito importante, amorosa e apoiadora. Na época ela já trabalhava na ‘Pró-curar-se’, uma fundação que apoia pessoas em tratamento para o câncer, estando atualmente como Diretora Presidente. Foi ela que nos empurrou lembrando que éramos formadas em Administração e que iríamos conduzir os negócios.”  

 

Falando nisso, quando você descobriu que iria assumir o seu lado nesta sucessão, qual foi sua reação?

MICHELLE MORAIS: Meu pai era muito novo quando se foi, pois tinha apenas 52 anos. Assumir os negócios foi um choque muito grande. Ninguém esperava que ele fosse embora tão cedo assim e nós ainda não havíamos preparado a sucessão. Ninguém trabalhava com ele e ninguém entendia do assunto e nem dos negócios dele. Nem eu, nem minhas irmãs e muito menos nossa mãe.

Ele atuava muito sozinho à frente da gestão dos negócios, essa é a verdade. Então, tivemos que assumir no automático. Fizemos uma reunião, uma roda com todos os colaboradores que, na época, eram mais do que hoje. Foi dada a notícia: ‘agora somos nós que vamos tocar o negócio e precisamos muito da ajuda de vocês’. Foi assim que aconteceu. Nós não pensamos duas vezes se íamos ou não assumir. Na verdade, foi tudo muito natural.

Por exemplo, minha irmã morava nos Estados Unidos e chegou no dia do enterro do nosso pai. Ele faleceu na sexta-feira e na segunda-feira seguinte começamos a tocar os negócios em frente. Nós sequer conversamos se íamos vender tudo ou colocar alguém para gerir. Nossa mãe nos lembrou que eu e Cynthia éramos formadas em Administração, que ‘Deus escreve certo por linhas tortas’ e que não estávamos ali por acaso”.

Penso que isso tem muito a ver com a criação que nós tivemos, pois meus pais sempre nos empurraram para fazer as coisas. Este foi um valor que eles nos passaram, de ter coragem, de ter fé, de persistir nos objetivos. Foi assim que nós assumimos os negócios seguindo aquilo que nossos pais nos ensinaram. Contamos muito com o apoio de toda a família paterna, também, o que foi essencial para seguirmos em frente.

Mas, é claro que não foi fácil, pois nós caímos de paraquedas em um negócio sem sermos preparadas de forma objetiva. Nós não entendíamos da coisa em si e a equipe que atuava era da confiança dele. Foi um grande processo de aprendizado com os colaboradores de todos os negócios em atividade que existiam na época”.

Para que se tenha uma ideia a Fazenda CBM fica no município de Brasilândia de Minas. É distante de Patos de Minas. O gerente de lá é o José Antônio, que foi muito importante na transição da propriedade rural. Hoje ele continua conosco e já está nesta função há quase 30 anos. Ele praticamente nos viu crescer. Foi isso que gerou nossa confiança para fazer uma gestão à distância, por exemplo.

 

Depois de superados os desafios iniciais, quando você percebeu que havia assumido o controle da situação?

MICHELLE MORAIS: Na verdade, eu não deveria ter buscado tanto o controle como busquei. Essa busca, de fato, até me adoeceu. Cerca de três anos depois eu entrei em depressão, esgotei, fiquei uns dias em off. O corpo e as emoções não aguentaram.

Meu perfil é de ser muito dedicada e esforçada em tudo o que faço. Tudo aquilo me trouxe uma sobrecarga muito grande. Naquela época, minha irmã estava permanecendo aqui apenas para esta implantação e não iria ficar, pois ela já tinha a vida dela nos Estados Unidos. Ela acabou ficando e hoje em dia somos grandes parceiras na condução dos negócios sendo que ela é Diretora Executiva da Duofértil. Nossa outra irmã já era médica. Então eu abracei tudo desde o início com unhas e dentes. Hoje temos nosso ‘Conselho Consultivo da Família’, no qual as decisões são compartilhadas, mas tive que assumir na prática o controle desde o primeiro momento em que assumi esta posição.

 

Você era muito jovem e mulher. Como isso influenciou em seu início?

MICHELLE MORAIS: Poucas pessoas sabem dos desafios que tivemos. Sim, eu era muito nova e, sendo mulher num setor tão masculino, tinha que me relacionar com os funcionários antigos do meu pai, por exemplo.

Assim que assumimos, a multinacional que na época a Duofértil atendia nos serviços de mistura de fertilizantes, com profissionais bem capacitados, maduros e com mais de 40 anos de mercado nos questionaram se iríamos cumprir ou não o contrato. Isso cerca de 10 dias após o falecimento de meu pai.

Enfrentamos situações assim e sofremos um pouco de preconceito, também, principalmente no sentido de se daríamos conta do recado, ou não.

Quero dizer com isso que me senti, sim, um pouco fragilizada no início. Via nos olhares e sentia até nos congressos em que ia, pois eu era muito jovem. Além disso, o público era 99% formado por homens. Desta forma, muitos chegavam para bater um papo mesmo, mas não para falar de mercado, entendeu?

Contudo, nunca deixei que isso interferisse de fato. Sempre segui o que estava proposto para ser feito e a meta era manter o negócio. Por isso, durante muitos anos eu não busquei crescimento das empresas. Eu e minha irmã, como únicas gestoras, focamos na organização e na profissionalização dos negócios e da equipe.

É que sempre busquei me posicionar em todos os momentos e colocar as minhas ideias e estratégias de negociação. A busca é pela confiança na minha capacidade. E, claro, tenho muito do meu pai em mim! Também tenho este perfil mais comercial e de negociadora. Gosto de empreender e isso vem dele.

Também trabalhei na busca pela confiança na minha capacidade. Por isso, comecei também a me profissionalizar cada vez mais e sempre buscar ajuda de pessoas, dentro e fora dos nossos negócios.

Tem ainda um lado mais sensível na forma de olhar para o negócio e para as pessoas, que vem muito da minha mãe. Ou seja, tenho 50% de cada um de meus pais.  

Para fechar este raciocínio, nós mulheres precisamos mostrar que temos esta visão mais holística do negócio. Nossa preocupação vai além de ganhar dinheiro, produzir mais ou de ter ‘x’ cabeças de gado na fazenda. Nós nos preocupamos com todas as vertentes, chegando ao ambiental, ao social e aos detalhes. Claro que devemos nos preocupar com a rentabilidade também, pois é isso que sustenta o negócio. São vantagens deste olhar feminino que vem se complementar com o olhar masculino, pois é claro que por muitas vezes senti falta deste outro olhar.

 

E hoje? Como é sua vida e quais são suas diversões e suas  atividades pessoais?

MICHELLE MORAIS: Costumo brincar que tenho meu ‘pacote de sobrevivência’. Para aguentar tudo isso, toda esta pressão e os momentos de stress no trabalho, mesmo sendo prazeroso para mim.

Tenho muitas atividades na Duofértil e a propriedade rural é algo que toco sozinha, mas somos três sócias que, apesar de sermos irmãs, muitas vezes fico mais preocupada por causa dos riscos do próprio negócio”.

 

Leia o artigo completo no site da Rede UMA: https://umaportodas.com.br/noticias/e-nos-imprevistos-que-e-medida-a-nossa-capacidade-de-superar-as-adversidades/

 

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