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    Mesmo sem unicórnios, agtechs seguem atraindo investimentos

    Painel Soonicorns no agronegócio, do AgTech Meeting, discutiu perspectivas para aportes em ag&food techs em meio a quadro de instabilidade econômica
    AgTech Garage
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    Mesmo sem unicórnios, agtechs seguem atraindo investimentos

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    O mercado de investimentos em startups vive um cenário de maior aversão ao risco, com o contexto macroeconômico instável após a pandemia, diante da guerra na Ucrânia, alta da inflação dos alimentos e reajustes nas taxas de juros de vários países — que deixa os Venture Capitals (VC) mais cautelosos principalmente em rodadas robustas de aporte em startups que estão na fase de escala. 

    Mas, afinal, há dinheiro e apetite para manter o ritmo de investimentos nas startups do agro no Brasil? No painel Soonicorns no agronegócio, que abriu o AgTech Meeting 2022, Flavio Zaclis (Diretor da Barn Investimentos), Álvaro Andrés Gómez Rodriguez (Business Development Manager na Suzano Ventures), Isadora Faria (Gerente Sênior de Novos Negócios da PwC Brasil) e José Tomé (CEO do AgTech Garage) compartilharam as suas visões. 

    Na opinião de Zaclis, apesar de, no momento, haver menos dinheiro circulando para investimentos, que é um reflexo dos últimos dois anos “atípicos”, o cenário é melhor do que no passado. “É um ótimo momento para o agronegócio, porque as bases para o mercado de empreendedorismo e de investimentos, sejam de Corporate Venture Capital ou Venture Capital já existem. Há 10 anos, não tínhamos nada, não tínhamos as opções que existem hoje”, lembra. “Ao mesmo tempo, é um momento de análise, de disciplina. Precisamos ser mais cautelosos para fazer os investimentos no mercado brasileiro”, diz o investidor, sobre um comportamento que deve ser adotado pelo mercado em geral.

    Segundo Zaclis, os investimentos continuarão acontecendo, só que com maior equilíbrio. “Não vai ser o mesmo cenário de dois, três anos atrás para ninguém, mas acredito em uma seleção de empresas e de bons modelos de negócios que fazem sentido para os investidores”. 

    José Tomé, CEO do AgTech Garage, e moderador da discussão, considera que — num contexto em que as principais preocupações mundiais giram em torno em torno da oferta de alimentos e seus preços, além das questões ambientais — o agronegócio tem atraído investidores de forma mais ampla, com muitas agtechs se posicionando também como cleantechs e inovando em prol da sustentabilidade e da economia verde. “O agronegócio ganhou uma relevância que vai além dele próprio, com reflexos nas questões climáticas e isso fez com que os investimentos fossem distribuídos de forma diferente, chamando a atenção para o Brasil e as tecnologias que desenvolvemos aqui”.

    “OPORTUNIDADE DE OURO”
    Conforme relatos dos painelistas, medo de recessão, inflação e escassez de alimentos são as maiores preocupações dos investidores ao redor do mundo, o que se traduz em uma “oportunidade de ouro” para o país. “Nesse sentido, o Brasil tem uma vantagem competitiva, pois é quem vai produzir metade da demanda de alimentos futuros do planeta. Então, é um momento ótimo para o Brasil se transformar e a mudança está nas mãos da iniciativa privada”, diz Zaclis.

    Para Rodriguez, da Suzano Ventures, o momento atual pressiona de forma positiva o amadurecimento dos empreendedores, que estão se profissionalizando e embasando suas estratégias de negócio. “O Brasil tem uma oportunidade ímpar diante da qualidade dos seus empreendedores e de um agronegócio com tamanho suficiente para gerar os próximos unicórnios”, argumenta. “Mas, mais importante que isso, é solidificar as empresas e garantir que as startups adquiram maturidade e perseverança para enfrentar os próximos ciclos”.

    UNICÓRNIOS
    Na visão de Isadora Faria, da PwC Brasil, o surgimento de unicórnios entre as agtechs no Brasil tem tudo para acontecer e servir de estímulo para impulsionar todo o mercado. “Eu torço para que o Brasil tenha sua primeira agtech unicórnio e vou fazer uma analogia que tangibiliza bem o que quero dizer. Acho que todo mundo já jogou uma pedra na água, sim? A energia se dissipa e a água começa a fazer ondulações. É como o surgimento de um unicórnio em qualquer setor, que provoca uma disrupção e vai gerando reverberações no ecossistema. Mais empreendedores olham para o segmento esperando grandes retornos, novas startups surgem, consequentemente mais investidores decidem investir em determinada frente”, diz. 

    Ela lembra que 94% das empresas no Brasil são micro e pequenas, e assim como não se espera que todas elas cheguem a faturar US$ 1 bilhão por ano (o que caracteriza um unicórnio), é irreal achar que todas as agtechs também chegarão lá. “Mas eu espero que tenhamos algumas startups unicórnios no agro brasileiro, porque esse movimento é super positivo para gerar ainda mais inovação na cadeia”, diz.  

    GOVERNANÇA CORPORATIVA
    No caminho para chegar a ser um unicórnio, ou simplesmente para atrair e captar investimentos daqui em diante, os especialistas são unânimes quanto à necessidade de o ecossistema empreendedor adotar de vez a governança corporativa. Tendência desde antes da crise financeira, a governança corporativa refere-se aos costumes, regras e processos que uma empresa adota em sua cultura administrativa. Uma vez aplicadas, essas regras orientam o relacionamento entre sócios, diretores, órgãos fiscalizadores e demais atores que fazem parte do ecossistema empresarial e têm o apelo de também corresponder às demandas dos investidores. “Quando o empreendedor tem o controle de gestão da organização, cria-se um ambiente muito mais seguro para atrair investidores”, justifica Zaclis, da Barn Investimentos.

    “Como investidores, com certeza, vamos nos sentir mais tranquilos em discutir com quem tem uma gestão por trás do negócio”, avalia Rodriguez, da Suzano Ventures. “Essa gestão não se refere apenas ao produto, à dor que estamos tentando sanar naquele momento, mas às equipes e aos recursos que estão sendo captados para garantir soluções no longo prazo que gerem benefícios conjuntos”. 

    A governança corporativa, na opinião de Zaclis, depende do grau de amadurecimento de cada organização, porém deve ser encarada de forma profissional desde o início. “Quando a companhia é pequena fica mais fácil olhar para a governança, mas quando o negócio é maior, envolve mais pessoas e mais investimentos, a governança passa a ser cada vez mais relevante”. 

    O amadurecimento das práticas de governança corporativa entre as startups é um dos temas que aparecem na pesquisa que será divulgada em setembro pela PwC Brasil em parceria exclusiva com o AgTech Garage no setor de Agronegócios, e que teve alguns recortes compartilhados em primeira mão durante o AgTech Meeting. “A governança reflete o amadurecimento das empresas e existem práticas adequadas para cada estágio em que as startups se encontram”, explica Isadora. 

    Por Viviane Taguchi e Marina Salles