O futuro dos investimentos no agronegócio é colaborativo

Estratégia de união ajuda a diluir o risco das rodadas e aumentar a densidade de conhecimento compartilhado com as startups investidas

Inovação

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Se engana quem pensa que investir em uma startup é como comprar um bilhete premiado de loteria. Você põe o dinheiro e espera o R$ 1 milhão chegar. No processo, há muito trabalho envolvido e muita colaboração. Caso contrário, nem a melhor startup do mundo teria chances de dar o primeiro passo rumo ao crescimento. 

Nascido na Irlanda, eu fui criado em uma fazenda de gado de leite durante os anos 1970. Desde muito cedo, cheguei à conclusão de que não queria ser fazendeiro, porque era um trabalho muito duro. Estudei Economia e Matemática e caí no mundo do Venture Capital (VC). Mas, hoje, pensando bem, vejo que a vida do investidor de agtechs e do produtor são bem parecidas. 

Os dois convivem diariamente com o risco e atuam em um mercado difícil de ser entendido por quem está de fora, dado seu grau de especialização. Por isso, em ambos os casos, é preciso ser persistente e trabalhar de forma colaborativa para obter os melhores resultados. 

A fazenda da minha família na Irlanda, por exemplo, era pequena e a gente não tinha uma colheitadeira até que meus pais e nossos vizinhos decidiram dividir a mesma máquina. Esse tipo de colaboração fez toda a diferença para o sucesso do negócio, e também tem demonstrado ser vital entre os VCs do agro, para diluir riscos e aumentar o potencial de ganhos nas startups. 

VENTURE CAPITAL
Antes de entrar no assunto do Venture Capital, aliás, gostaria de trazer uma explicação breve sobre esta modalidade de investimentos. Basicamente, no Venture Capital você tem um grupo de pessoas dispostas a tomar alto risco mediante a compra de participação minoritária, de 5% a 10%, em negócios nascentes. 

Para isso, os investidores de VC estruturam de forma profissional o que chamam de veículo de investimentos, geralmente um fundo da ordem de US$ 50 milhões, que ao longo de um prazo, em média 10 anos, faz uma série de aportes. 

O perfil do investidor do VC, geralmente, é de pessoas físicas com smart money, ou seja, conhecimento no mercado em que atuam, para poder ajudar as startups investidas na trajetória de escalada do seu negócio. E como os aportes dos VCs são muito arriscados — você está investindo em uma startup antes de ela ter tração, de ter faturamento — é muito comum que eles co-invistam numa mesma empresa e dividam também a tarefa de fazer o negócio crescer. Grandes empresas também têm se inserido nesse cenário, compondo as captações dos VCs. 


Voltando à história de que o crescimento das startups, principalmente do agro, não se dá sem esforço e trabalho conjunto, é, por isso, que você deve ter acompanhado o surgimento de muitos fundos especializados no setor e rodadas cada vez mais complexas — com alguns líderes e muitos seguidores. 

TECH POR TECH NÃO VALE PARA AS AGTECHS 
O The Yield Lab é um dos fundos de VC que nasceu com a tese de que é preciso focar em ag&food techs para fazer as startups do setor, de fato, se desenvolverem. Começamos em 2015 em Saint Louis, nos Estados Unidos, criando nossa nova marca a partir de um fundo mais generalista e já com muita experiência em Venture Capital, que entendeu as diferenças entre as agtechs e as outras techs. 

Naquela época, estava claro que elas tinham um perfil mais demorado para ter uma tração, porque o agro, sendo sazonal e tendo ciclos, demanda mais tempo do empreendedor para consolidar uma venda e testar seu produto na ponta. 

O mix ideal do fundo veio, então, da junção de pessoas experientes em Venture Capital somadas a investidores com conhecimento no agro, produtores rurais e family offices, e foi assim que a proposta ganhou o mundo. Em 2017, o The Yield Lab abriu seu escritório na Europa. Em 2018, na América Latina. Em 2019, na Ásia. E, em breve, estaremos também na África. Desde 2015, já investimos em mais de 60 empresas, sendo 18 na América Latina e 5 no Brasil (TerraMagna, Agroforte, Seedz, @Tech e VOA).

Faz muito sentido você olhar para a América Latina em termos de ag&food tech hoje porque a região é a maior exportadora de produtos agrícolas do mundo e tem uma grande capacidade produtiva, por conta da extensão da área plantada, da oferta de mão de obra e do clima, que permite produzir o ano inteiro. Por outro lado, a região tem também muitas ineficiências, como questões de logística, acesso a crédito, informação e transparência. Problemas que a tecnologia ajuda a resolver e que, na verdade, são perfeitos para quem está criando uma startup, porque trazem muitas oportunidades. 

COLLABORATIVE FUND 
De olho nesse oceano de possibilidades e na tendência dos investimentos colaborativos, estreamos no mercado latino-americano mais uma novidade recentemente, um fundo conjunto com o AgTech Garage para investir em ag&food techs.

Do lado do The Yield Lab, a expertise está na área de estruturação dos investimentos. Enquanto o AgTech Garage, referência na prática de inovação aberta em nível mundial, aporta todo seu relacionamento com a cadeia, e as mais de 60 empresas parceiras do hub, para juntos buscarmos investidores estratégicos, fomentarmos o desenvolvimento das startups investidas e ajudarmos a que elas cheguem no estágio de uma rodada série A. 

O foco dos nossos investimentos é em ag&food techs em estágio inicial, para dar fôlego a um futuro ganho de escala e a chegada estruturada nessas rodadas de série A. Atualmente, o maior problema das agtechs no Brasil é superar o vale da morte entre o investimento anjo e a série A. Em um ambiente de investimentos pulverizado, geralmente o investidor anjo é uma pessoa-física do agronegócio, que gosta do empreendedor e da solução, mas na hora de ajudar a preparar uma série A, não conhece o próximo investidor e quais atributos ele vai procurar. O papel dos VCs é esse também e o nosso objetivo é ajudar a fazer essa roda girar. 

Produtores rurais, investidores pessoa-física e empresas de qualquer porte podem participar do fundo de VC que a gente batizou de Collaborative Fund, entendendo que a ideia de investir a várias mãos dá mais resultado e retorno para as startups e o próprio ecossistema amadurecer e prosperar.

Se você também acredita que o futuro dos investimentos em startups é colaborativo, continue acompanhando minha coluna no AgTech Garage News. Por aqui, sempre teremos conhecimento para compartilhar. 

-Kieran Gartlan é diretor do The Yield Lab Latam. Há 25 anos, atua na América Latina nos setores financeiro, de commodities e capital de risco (Venture Capital). Sua experiência também passa pela área de empreendimentos corporativos, inovação, mentoria de startups e investimentos.

*As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor e não refletem necessariamente a visão do AgTech Garage News e John Deere Conecta.

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