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    Pecuária nacional acelera o processo de digitalização

    No AgTech Meeting, painel discute a necessidade de facilitar implementação de tecnologias para pequenos e médios produtores tanto quanto para grandes rebanhos
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    Pecuária nacional acelera o processo de digitalização
    Pecuária nacional acelera o processo de digitalização

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    A indústria de saúde e nutrição animal vive um processo de transformação digital acelerado pelas demandas por sustentabilidade e bem-estar animal, além da gestão profissional das fazendas. Nesse contexto, drones, sensores de monitoramento de bovinos, aves e suínos, balanças de precisão e protocolos digitais de certificação e rastreabilidade são algumas das soluções que passaram a ser incorporadas pelos produtores e integrar o pipeline das grandes empresas. O desafio, agora, é chegar não só aos TOP produtores, mas também àqueles que operam de forma extensiva, em alguns casos ainda com perfil extrativista. 

    Durante o painel Digitalização Acelera na Pecuária apresentado no AgTech Meeting, Rogério Rossi (Gerente Nacional de Ruminantes da Ceva), Gustavo Ferro (Diretor Associado de Inteligência de Dados e Desenvolvimento de Negócios na MSD) e Maicon Buzatti (Gerente de Tecnologia e Controle da Cooperativa Cotrijuc) participaram de um bate-papo mediado por Marcelo Carvalho (Co-fundador do AgTech Garage) sobre as inovações na pecuária e a aceleração necessária para o setor manter sua competitividade, atender às novas demandas do mercado, e tirar o atraso que acumulou frente ao avanço tecnológico da agricultura.

    “Se a gente compara a digitalização da agricultura e da pecuária, a gente vê que a agricultura está muito mais avançada. Hoje, se um produtor de grãos, dos clássicos milho e soja, produzir 70% menos que a média dos TOP 10 da sua região, ele começa a entrar no vermelho. Na pecuária, a média de produção nacional ainda está na casa de 6 arrobas por hectare por ano, pensando na produção extensiva. Por outro lado, sistemas intensivos produzem 40@/ha/ano e no confinamento é possível passar de 100 @/ha/ ano. A discrepância é muito grande e faz com que alguns produtores de pecuária vivam quase que como extrativistas”, diz Ferro, da MSD.

    URGENCIA NOS REBANHOS INTENSIVOS
    Num cenário como este, Rogério Rossi, da Ceva, opina que a digitalização da pecuária extensiva para grandes rebanhos pode ser até mais urgente do que nos rebanhos intensivos, que pela sua característica já deixam o produtor mais perto. “No sistema intensivo, principalmente de confinamento, o produtor está vendo o animal e sabe o que está acontecendo. Quando você vai para uma fazenda de 40 mil hectares de pasto Mato Grosso adentro, você vê o animal duas vezes por ano na hora de vacinar. A digitalização tende a criar mais vantagens para esse produtor extrativista porque você vai gerar um monitoramento dentro da fazenda. A necessidade e a aplicabilidade da tecnologia passam a ser ainda maiores neste caso”, afirma.

    RESPONSABILIDADE DA INDÚSTRIA, STARTUPS E ACADEMIA
    De acordo com os especialistas, chegar até o pequeno e médio produtor é fundamental, o que vai depender da capacitação da mão de obra das fazendas e de uma consciência das empresas, sejam as gigantes de saúde e nutrição animal sejam as startups, sobre a demanda por simplificar a implementação de novas tecnologias no campo. Atualmente, Rossi lembra que o Brasil tem cerca de 2,7 milhões de propriedades com rebanhos de gado de corte e leite e realidades muito diferentes entre si. “A Ceva está em aproximadamente 2,5 mil destas fazendas no Brasil e o grande gargalo relacionado à digitalização é a educação. É uma das nossas responsabilidades, como indústria, olhar para a implementação da tecnologia no campo”, Rossi afirma.

    APLICATICVO
    Na Ceva, o executivo conta que sete projetos relacionados à digitalização estão em andamento. Entre eles, o de desenvolvimento de um aplicativo em parceria com a startup iZap, que nasce com um pilar relacionado à sanidade e outro ao bem-estar animal, aos quais outros irão se somar no futuro. O aplicativo funciona fazendo um check-list da propriedade pecuária em relação a todas as interações dos fármacos da Ceva com os animais. A intenção é identificar desvios vacinais, evolução de tratamentos contra ectoparasitas, vermes etc. e dar uma visão completa da sanidade e bem-estar de dentro da fazenda. 

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    Feito o check list, o aplicativo apresenta soluções com protocolos de tratamento previamente estabelecidos e a calendarização sanitária para prevenção de problemas. “Com esse aplicativo, a gente consegue enxergar a situação de cada uma das categorias animais dentro da fazenda e dar uma recomendação, que é fornecida ao médico veterinário para a tomada de decisão final”, explica Rossi. O app Ceva Pro já está sendo usado internamente pelas equipes da empresa e a intenção é lançá-lo no mercado como serviço de tecnologia para os pecuaristas de todo o Brasil.

    COLARES E BRINCOS
    Em 2019, a MSD oficializou a compra da Antelliq Corporation, que tinha entre suas marcas a Allflex — reconhecida no mercado por seus sistemas de monitoramento e identificação animal — adicionando uma base sólida de serviços de tecnologia ao portfólio de produtos farmacêuticos da multinacional. Hoje, além de colares de monitoramento da saúde e bem-estar animal e brincos eletrônicos para rastreabilidade do rebanho, a MSD conduz outros projetos. Entre eles, uma tecnologia para confinamento que mede a temperatura, comportamento animal e vários índices ligados ao bem-estar do rebanho, afirma Ferro, que lidera a tropicalização de ferramentas da companhia para introdução no Brasil — o segundo mercado para a MSD a nível global, atrás apenas dos EUA.

    CERCAS VIRTUAIS
    Além disso, a empresa está trazendo para o Brasil a tecnologia da Vence, startup investida do seu braço de Venture Capital (Merck Animal Health Ventures) na Nova Zelândia que cria cercas virtuais — muito aderentes à realidade nacional, onde 90% do gado é produzido a pasto. Por meio de sinal de GPS, os animais são monitorados e sua circulação fica restrita a áreas definidas virtualmente para permitir um melhor aproveitamento do capim e o aumento da produtividade por hectare. Em outro projeto, a MSD lançou mundialmente um serviço que faz a interpolação de dados gerados por dispositivos a campo para comparar fazendas ao redor do globo. “A gente consegue comparar uma fazenda de produção de leite do Brasil com uma da França e gerar informações para o produtor e seus parceiros, como indústrias de nutrição e genética”, diz. 

    IMPORTÂNCIA DA ACADEMIA
    Durante o debate, o papel da Academia também foi mencionado nos discursos e Marcelo Carvalho, do AgTech Garage, lembrou que boa parte das tecnologias hoje disponíveis no mercado nasceram nas universidades e institutos de pesquisa. “A inovação está acontecendo agora e o que a gente precisa fazer é criar os canais de comunicação das universidades com o ecossistema, o que o AgTech Garage busca fazer por meio do programa Fellowship. Porque tudo o que falamos neste painel, na verdade, depende do conhecimento gerado dentro da Academia”, afirma.

    CAPILARIZAÇÃO POR MEIO DO COOPERATIVISMO
    No Rio Grande do Sul, Maicon Buzatti, da cooperativa Cotrijuc, vivencia diariamente os ganhos da aceleração da digitalização no campo. Fundada em 1950, a Cotrijuc tem 4.650 cooperados, dos quais cerca de mil são pecuaristas, e participa de diferentes iniciativas de estímulo ao uso de tecnologia no campo, com potencial de impactar em torno de 1,5 milhão de cabeças de gado de corte e de leite dos seus cooperados.

    Por meio de uma parceria com a startup CowMed, por exemplo, a Cotrijuc incentiva o monitoramento da saúde do rebanho e a geração de benefícios que vão além do viés financeiro. “Quem trabalha com leite sabe que o produtor não tem férias. Porque a gente diz que a vaca dá leite, mas é o produtor que tem que tirar. Agora, em parceria com a CowMed, que faz o monitoramento da saúde animal usando um colar, nosso objetivo é conseguir sincronizar o período de parto do rebanho. Porque quando a vaca vai dar cria ela tira férias, e o produtor também poderá tirar”, diz. 

    Iniciado a um ano, o projeto já roda com 300 coleiras e a expectativa é chegar a mil coleiras no curto prazo. Segundo Buzzatti, o serviço é oferecido  como ferramenta de fidelização do cliente que opera a compra de insumos 100% via cooperativa e vem acompanhado de insights dos técnicos da instituição para facilitar a implantação nas fazendas.

    Também em parceria, neste caso com outras seis cooperativas, a Cotrijuc trabalha há dois anos com o sistema Smart Coop, que foi desenvolvido para simplificar a compra e entrega de insumos dos associados. Do público potencial de 170 mil cooperados da rede, 15 mil já aderiram à plataforma e podem iniciar suas negociações e fazer pedidos de entrega de insumos digitalmente. Na visão de Buzzatti, a tendência é a capilaridade aumentar com o tempo, frente à sucessão familiar e o hábito crescente do produtor rural de usar o celular. 

    Mais recente, é a adoção do serviço da startup ZTech, que opera com balanças de precisão, câmeras e tecnologia de inteligência artificial para pesar e fazer a contagem digital do rebanho. “Só de você trazer o boi até o curral para pesar às vezes ele perde 1 quilo no trajeto, então por que não fazer isso remotamente? Evita estresse também e, por isso, estamos testando essa tecnologia da ZTech”, explica. 

    Por Marina Salles