Confinamento é rentável em 2021?

As quedas nos preços futuros da arroba do boi gordo e os custos de produção elevados pressionam as margens do confinamento de bovinos no segundo semestre de 2021

Pecuária

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O mercado do boi gordo está vivendo um cenário atípico para a entressafra (menor disponibilidade de boiadas de pasto). Até 23/7, considerando as 32 praças monitoradas pela Scot Consultoria, a média de preços recuou 0,2%. Desde 2018 não ocorria desvalorização em julho.

A situação atual é de relativa tranquilidade na composição das escalas das indústrias, mas sem oferta suficiente para que as cotações cedam de maneira generalizada (em função do momento do ciclo pecuário). A situação do clima no Brasil explica essa situação de mercado.

Apesar do cenário atual, os preços seguem firmes. Segundo levantamento da Scot Consultoria, na praça de Barretos-SP, a referência para o boi gordo está em R$308,50/@ (23/7), considerando o preço à vista, descontado o Funrural e o Senar.

Desde o início do ano a cotação subiu 19,1% e, na comparação com julho do ano passado, está 43,8% maior. Veja a figura 1.

Figura 1.
Preços da arroba do boi gordo em Barretos-SP, em R$/@, à vista, descontado o Funrural e o Senar.
Fonte: Scot Consultoria

A expectativa é de preços firmes para os próximos meses. O segundo semestre marca a maior entrada de gado confinado no mercado brasileiro e, em 2021, o cenário de custos de produção e de animais para reposição elevados tendem a impactar os preços e resultado do sistema.

Custos de produção e preços no mercado de reposição
O confinamento estratégico é uma alternativa para terminar os bovinos durante o período seco do ano.

Porém, ao considerarmos que os custos com o boi magro e a alimentação concentrada respondem por mais de 90% dos custos do confinamento, é preciso fazer as contas para estimar os resultados da operação.

Os custos da diária/boi em um sistema de confinamento em São Paulo subiram 58,1% entre julho/20 e julho/21 (Índice de Custo de Produção de Bovinos Confinados – ICBC), aumento associado à alta nos preços dos principais insumos presentes nas dietas (figura 2).

Figura 2.
Preços, em R$/tonelada, sem o frete, dos principais insumos destinados à dieta de bovinos em confinamento.
Fonte: Scot Consultoria.

Já o custo com a aquisição do boi magro, nesse mesmo intervalo, subiu 35,9% nas praças paulistas, negociado por R$4.350,00/cabeça.

Esses fatores, somados, pressionam a margem do invernista.

Pelo lado dos custos de produção, a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), no décimo levantamento de acompanhamento da safra brasileira de grãos (2020/21), divulgado no início de julho, revisou para baixo a produção de milho segunda safra, em fase de colheita no Brasil.

A estimativa é que sejam colhidas 66,97 milhões de toneladas de milho na segunda safra ou safra de inverno, 4,3% menos, ou 2,98 milhões de toneladas a menos, que o previsto em junho.

A revisão, somada a condições climáticas adversas, principalmente a ocorrência de geadas, ao longo de julho, pressionou o preço do milho, que subiu 18,5% em trinta dias (23/6) em Campinas-SP.

Os preços em alta para o milho tendem a impactar a demanda pelos demais insumos, e esse cenário mantém a expectativa de preços firmes para o curto prazo e custos de produção elevados.

Resultados confinamento
Com a forte alta dos custos de produção e recentes quedas nos preços futuros do boi (B3), fizemos uma simulação de resultados operacionais.

Na simulação consideramos um sistema de engorda de bovinos em confinamento em São Paulo, com a entrada do gado no início de agosto/21, 90 dias de confinamento, ganho de peso diário de 1,6 quilo e rendimento de carcaça de 56%.

A venda para o frigorífico no cenário apresentado ocorrerá em meados de outubro/21.

Adotamos uma diária média de R$17,00 por cabeça e o preço de aquisição do boi magro em R$4,35 mil por cabeça.

O cenário para a venda do boi gordo considerou a cotação do contrato futuro de boi gordo na B3, que se refere ao mercado paulista, com vencimento em outubro/21. A cotação é de R$321,55 por arroba, no fechamento de 22/7/2021.

Veja na tabela 1 os parâmetros utilizados e a estimativa de resultado por bovino confinado em 2021.

Tabela 1.
Estimativa de resultado econômico da engorda de bovinos em confinamento em São Paulo em 2021.
Fonte: Scot Consultoria

O resultado previsto hoje é de um lucro de R$170,28 por cabeça confinada.

Se observarmos na figura 2, na segunda metade de maio, o contrato de outubro/21 chegou a ser negociado acima de R$340,00/@.

Figura 2.
Evolução da cotação do contrato de boi gordo com vencimento em outubro/21 na B3, em R$/@.
Fonte: B3

Ao considerarmos a possibilidade de o produtor ter realizado a adoção de estratégias de trava de preços para o preço de venda do boi gordo em R$343,50/@, referente ao fechamento de 21/5/21, e mantendo os custos, teríamos um lucro de R$583,30 por cabeça confinada, 343% maior.

Expectativas
Considerando o segundo giro do confinamento (entrada dos animais em agosto e saída em outubro), uma melhoria nos resultados financeiros da atividade estaria relacionada a uma alta nos preços da arroba ao longo dos próximos meses.

Analisando os fundamentos de mercado, a expectativa é de uma oferta mais restrita de boiadas em curto e médio prazos e essa lacuna mantém o viés de alta sobre as cotações da arroba dos animais terminados.

Do lado das exportações, o cenário é positivo para os embarques de carne bovina no segundo semestre, o que, somado à retomada do dólar em julho, mantêm as expectativas positivas, dada a melhor competitividade da carne bovina brasileira no mercado internacional.
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