Mercado do boi gordo e o caso atípico de vaca louca: impactos e expectativas

Apesar do cenário pressionado em curto prazo, as expectativas são positivas para a último trimestre

Pecuária

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Em agosto de 2021, o mercado do boi foi marcado por um sutil aumento na oferta de animais para abate, causado pela maior disponibilidade de gado oriundo de confinamentos de primeiro giro. 

Esse cenário resultou em um alongamento das escalas de abates em praças pecuárias com maior participação de confinamentos e, consequentemente, houve pressão de baixa sobre os preços no mercado do boi gordo. 

O cenário piorou no começo de setembro, com a confirmação, no dia 4, de dois casos atípicos de vaca louca (encefalopatia espongiforme bovina, BSE, na sigla em inglês) em Nova Canaã do Norte (MT) e Belo Horizonte (MG), além de outros fatores de conjuntura nacional.

Estes foram o quarto e o quinto casos de vaca louca atípica identificados no Brasil. Os outros casos ocorreram no Paraná (2010) e em Mato Grosso (2014 e 2019).

IMPACTOS NO MERCADO DO BOI 

Mesmo com o encerramento do caso pela Organização Mundial de Saúda Animal (OIE) em 6 de setembro, pelo cumprimento de protocolos sanitários bilaterais entre Brasil e China, nosso principal comprador, as exportações de carne bovina ao país asiático estão suspensas desde 3 de setembro, até um posicionamento do mercado chinês. 

Além do mercado chinês, outros compradores também suspenderam os embarques até segunda ordem. 

Com relação ao mercado, a maioria dos frigoríficos seguiu fora das compras até o dia 10 de setembro, data de elaboração deste artigo. As indústrias que estavam comprando neste período ofertavam até R$10,00 a menos por arroba, mas com poucos negócios concretizados.

Veja na figura 1 a evolução dos preços da arroba do boi gordo em São Paulo nos últimos anos e os impactos dos casos atípicos de vaca louca em 2019 e este ano sobre os preços da arroba do animal terminado (destacados em vermelho). 

Figura 1. 
Preço do boi gordo em São Paulo, em R$/arroba, a prazo, livre de impostos, valores nominais.
 
Fonte: Scot Consultoria.

Em 2019, o caso atípico ocorreu no final de maio, os embarques foram suspensos, mas novamente liberados em menos de duas semanas. 

Àquela época, o mercado do boi gordo cedeu 3,6%, mas, ainda em junho, o patamar de preços já superava a cotação anterior à confirmação do caso. 

As exportações, em junho de 2019, caíram 7,9% na comparação mensal, com recuo de 29,1% nos embarques à China. A situação foi logo revertida e, em outubro daquele ano, foi registrado recorde em termos de volume mensal, até então. 

Figura 2. 
Exportações brasileiras de carne bovina in natura de 2019 até o momento, volumes mensais, em mil toneladas, e participação do mercado chinês em relação ao total.
 
Fonte: Secex / Elaboração: Scot Consultoria

A situação hoje, diferente de 2019, é de uma oferta de gado levemente mais confortável, como comentado, com a produção em confinamentos dando uma tônica de mercado entre estável e pressionado.

O cenário atual, somado aos custos de produção de confinamento nos patamares elevados hoje, dificultam uma possível pressão do lado vendedor nesse momento.

DE OLHO NA CHINA

As exportações têm sido fundamentais para a sustentação dos preços no mercado do boi gordo em 2021. 

Em agosto/21, o Brasil quebrou o recorde mensal de embarque de carne bovina in natura, com 181,6 mil toneladas exportadas. Desse volume, o mercado chinês foi responsável por 105,6 mil toneladas (Secex).

A confirmação dos casos atípicos do mal da vaca louca tem impacto direto em curto prazo no mercado do boi gordo, principalmente nas exportações brasileiras.

Lembrando que a China tem comprado menos da Austrália, por divergências políticas. A Argentina tem limitado o comércio exterior e ninguém sabe qual será a próxima medida do governo local.

As compras chinesas de carne bovina dos Estados Unidos aumentaram este ano, mas como a relação entre esses países possui sempre algum ponto de atrito, ter o fornecimento concentrado nos Estados Unidos não é das melhores estratégias para a China.

Em outras palavras, não é interessante para os chineses prolongarem a questão de algo que, sabidamente, não é um problema de saúde pública e, desse modo, devemos brevemente ter a retomada das compras pelo gigante asiático.

EXPECTATIVAS

Embora a expectativa seja de resolução desta situação em um curto prazo, isso não significa que não haverá ajustes de produção, o que deverá aumentar a pressão no mercado do boi gordo e quedas nos preços não estão descartadas ao longo de setembro.

No entanto, os fundamentos de mercado não mudaram, ou seja, estamos em um período de maior retenção de fêmeas e, consequentemente, menor oferta de gado para abate comparativamente com o mesmo período de anos anteriores.

Somado a isso, em médio prazo, com a normalização das exportações brasileiras, o câmbio ainda em patamar elevado e sinais claros de retomada da economia brasileira, as expectativas são positivas para os preços da arroba no último trimestre do ano. 




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