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    Colhedoras de cana duas linhas: mais produção e menos custos – Parte 2

    Produtores atestam a qualidade da máquina da John Deere, que tem reduzido perdas totais e a compactação dos solos em 60%, além de proporcionar ganhos em rendimento de colheita e economia de diesel
    Natália Cherubin, RPAnews
    Colhedoras de cana duas linhas: mais produção e menos custos – Parte 2
    Colhedoras de cana duas linhas: mais produção e menos custos – Parte 2

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    Colhedora De Cana

    A única máquina de duas linhas disponível no mercado é a CH950, da John Deere, lançada em 2020. Até agora, mais de 100 mil horas de colheita já foram realizadas com as CH950 vendidas entre 2020 e 2021, de acordo com a fabricante. Uma das pioneiras no uso da tecnologia foi a Usina São Manoel, do interior de São Paulo. O projeto teve início em agosto de 2020 com aquisição da primeira máquina.

    De acordo com Murilo Gasparoto, gerente Operacional Agrícola da Usina São Manoel, com engajamento dos colaboradores de colheita e manutenção, em pouco tempo a empresa passou a colher bons resultados e hoje tem quatro máquinas de duas linhas.

    Não existiram barreiras na implantação do projeto das colhedoras de duas linhas dentro do CTT da Usina São Manoel, que foi dividida em duas etapas. A qualitativa, no qual o foco foi buscar os mesmos índices que a colhedora de uma linha, até então utilizada pela companhia, entregava, ou seja, em perdas, impurezas minerais e vegetais, e pisoteio do vaso e linha de plantio.

    Na segunda fase, a quantitativa, o foco foi no rendimento (t/máquina/dia), no consumo de combustível (litros/tonelada) e logística interna (transbordos e aceiros de colheita). A meta era atingir perdas de 1,4 toneladas por ha, 7,6 Kg por tonelada de impureza mineral e 50 kg por t de impureza vegetal. No rendimento da CH950, a Usina São Manoel relata ter alcançado 1.600 t/máquina/dia.

    Única máquina de duas linhas em comercialização é a CH950, da John Deere, lançada em 2020 (Divulgação: Atvos)

    “As metas de perdas e de impurezas mineral e vegetal foram atingidas. No entanto, o rendimento ainda não é uma constante porque estamos em uma curva de aprendizado das máquinas adquiridas por último. Para atingir o máximo da colhedora, é necessária a evolução de todos os projetos de sistematização de nossas áreas e das áreas de fornecedores”, destaca Gasparoto.

    REDUÇÃO DA COMPACTAÇÃO 
    O principal benefício observado pela São Manoel foi a redução da compactação. Em um experimento realizado em setembro de 2020 foram divididos dois blocos de colheita a fim de fazer a comparação da colheita de duas linhas x colheita de uma linha.

    “Após a operação foi observado um perfilhamento muito maior na área de colheita da CH950. Em setembro de 2021, quando realizamos a colheita, chegamos em um valor de 7% maior na produtividade, mas esse acompanhamento será realizado até o último corte dessa blocagem, a fim de avaliar todo o ciclo”, destaca o gerente Operacional Agrícola da Usina São Manoel.

    Levando em consideração a produção da colhedora, atualmente a usina atinge 35% de rendimento maior na colhedora de duas linhas, se comparada à de uma linha. “Mas sabemos que temos margem ainda para ser explorada, pois é um novo conceito de colheita e temos que buscar a melhoria em todos os processos envolvidos do plantio a colheita”, destaca.

    PILOTO AUTOMÁTICO 
    Ricardo Boldrin, que produz 400 mil toneladas de cana própria – sendo fornecedor da Coruripe, de Iturama, BP Bunge, de Ituiutaba e CMAA, de Canápolis, todas em Minas Gerais, e faz a colheita mecanizada de 2.800.000 toneladas em três unidades da BP Bunge, buscou a máquina de duas linhas com o intuito de aumentar a produtividade e baixar o custo da operação com qualidade de operação.

    O produtor tem 23 máquinas, das quais duas são de duas linhas, e vem fazendo a sistematização e o plantio e colheita com uso de piloto automático a fim de dar a melhor condição para a colhedora de duas linhas.

    Até o momento, de acordo com o produtor, os maiores ganhos observados com o uso da máquina de duas linhas foram 30% menos de diesel por tonelada de cana colhida e 30% a menos no número de transbordos usados no CTT. Além disso, a brotação da soqueira é visivelmente melhor, como é possível ver na Figura 1 (abaixo).


    “O corte de base da máquina de duas linhas é quase perfeito. O único ponto de melhora importante é na questão da limpeza. Dependendo da densidade de palha da variedade, a limpeza fica a desejar em comparação com a de uma linha. No entanto, a fabricante está trabalhando para trazer uma solução”, opina Boldrin.

    FUTURO EM DUAS LINHAS
    Givanildo Boisa Castilho, prestador de serviços da Brasil Agro – fornecedora de cana da Atvos, em Alto do Taquari, MT, tem usado a máquina de duas linhas desde o final de 2020. Hoje, das seis colhedoras, uma delas é de duas linhas.

    Boisa diz que não vê mais o futuro da colheita sem as máquinas de duas linhas e que está começando a adaptar sua frota para mais máquinas destas. Ele conta que tem notado muitos benefícios com relação a brotação, rendimento da máquina e economia de combustível.

    “O corte dela não tem comparação. É muito melhor que o da máquina de uma linha. É muito mais preciso. Não temos mais problemas com o abalo de soqueira e perdas por estilhaço. Já chegamos a fazer 2.300 toneladas/ máquina/ dia”, revela.

    Ainda de acordo com Boisa, a média de gasto de diesel, que era de 1,5 litros por tonelada na colhedora de uma linha, caiu para 1,1 a 1,2 litros por tonelada.

    “Importante destacar que é uma máquina mais demorada no quesito manutenção, porque necessita de uma prancha mais larga e longa para o seu transporte, além disso, é preciso que os operadores sejam bem selecionados, pois essa colhedora merece mais cuidados. Estamos aperfeiçoando cada dia mais o seu uso”, comenta.

    A máquina é grande. Na versão com bitola de 2,75 m a colhedora tem largura externa de 3,17 m, com a desmontagem de alguns elementos externos, ficando dentro dos padrões de legislação, não necessitando de licença especial e batedores. Em sua versão com bitola de 3 m, a colhedora tem excesso lateral e deve ser transportada conforme a legislação exige.

    A Atvos iniciou os testes com colhedoras de duas linhas em meados de 2020 e atualmente tem dois equipamentos em operação. Rodrigo Rodrigues Vinchi, diretor agrícola da Atvos, explica que a companhia estruturou um planejamento de colheita de maneira a relacionar as áreas mais aptas à operação desse equipamento. “Desta forma foi possível otimizar a performance destas colhedoras.”

    Para a frente que comporta as colhedoras de duas linhas foi feito um redimensionamento da quantidade de transbordos disponíveis, aumentando a relação transbordo/colhedora para otimizar o rendimento das máquinas e evitar paradas na operação por falta de transbordo.

    Por enquanto, de acordo com Vinchi, a companhia tem observado números animadores em termos de consumo de combustível, redução do pisoteio, redução de manobra, gasto com manutenção, entre outros.

    “É importante ressaltar que selecionamos áreas de melhor potencial para a operação dessas máquinas e que esta tecnologia não necessariamente será uma realidade para todo o campo”, observa o diretor agrícola da Atvos.

    No que diz respeito aos aspectos qualitativos da operação de corte com máquinas de duas linhas, Vinchi diz que os números coletados no decorrer da safra 2021/22 são perfeitamente compatíveis com os números das colhedoras de uma linha.

    SISTEMATIZAÇÃO E COLHEITABILIDADE
    Como diz a frase “uma andorinha só não faz verão”, com as colhedoras de duas linhas é a mesma coisa. Para a melhor performance, é preciso se atentar a dois pontos principais: sistematização e colheitabilidade. De acordo com a Maria Renata Fregonezi Gonçalves, especialista tática do mercado de Cana-de-Açúcar da John Deere, é importante evitar “matações” nas linhas de sulcação do canavial e tiros longos sem carreadores de acesso que facilitem a logística.

    “A máquina deve colher posicionada nas linhas gêmeas, ou seja, onde foi o rastro do trator de plantio, para evitar que haja variação de distância entre as linhas que estão sendo colhidas. E um fator muito importante é que o dimensionamento de logística seja ideal, com malhadores bem posicionados e números de tratores transbordos suficientes para que a operação não pare por falta deles. Esses fatores geram uma redução muito grande de performance da máquina”, afirma Maria Renata.

    A Atvos iniciou os testes com colhedoras de duas linhas em meados de 2020 (Divulgação: Atvos)

    Para obter o melhor desempenho desta colhedora, a usina São Manoel teve muito cuidado com a adaptação no layout e linhas de plantio, a fim de garantir melhor colheitabilidade.

    Gasparoto revela que em toda área a ser reformada é realizada uma Reunião Operacional no local, com todo corpo técnico e operacional presente, visando o alinhamento das informações para o melhor aproveitamento de todas as operações agrícolas a serem realizadas.

    Nessa Reunião, são levados os projetos contendo as linhas de sulcação (projeto atual e proposta de melhoria a ser discutida), mapa de declividade, mapa de escoamento superficial da água e mapa altimétrico, sendo que estes fornecem subsídios para a melhor tomada de decisão.

    Os projetos são elaborados com base na sistematização, ou seja, todo projeto visa o maior aproveitamento da área efetiva de plantio (mais linhas de cana por hectare plantado), melhoria do rendimento operacional (redução de manobras) e “matacões”, conciliando as limitações do terreno e conservação do solo. Resultando em maior produtividade e maior eficiência.

    “Após validações, estes projetos são implantados e consequentemente utilizados para o ano seguinte na colheita mecanizada (Piloto Automático). Com a aquisição das CH950, um facilitador para operação é a indicação das linhas de colheita que foram pares durante o plantio, resultando em um paralelismo de 100%, agregando maior qualidade a colheita”, explica o gerente Operacional da Usina São Manoel.

    EVOLUÇÕES
    O futuro do mercado de colhedoras certamente trará um mix das máquinas de duas linhas com as “single row” (uma linha).

    “Entendemos que a máquina de duas linhas será ampliada e terá seu mercado aumentado nos próximos anos, entretanto, não será o futuro, fará parte dele. Afinal, não são todas áreas em que se pode trabalhar com essas máquinas de duas linhas. Quanto menor a população do efetivo de colhedoras, maior é o risco de ter somente esse tipo de máquina, devido a análise de riscos pela indisponibilidade e confiabilidade do ativo”, comenta Dário Sodré, da D2G Consultoria.

    No entanto, de acordo com o gerente de Produto Cana-de-Açúcar da John Deere, Felipe Dias, os clientes que já possuem o equipamento indicam adoção de 70% em suas áreas. “No próximo ano já vamos ver situações em que 100% da colheita é feita com a CH950.”

    Sodré diz que um dos grandes diferenciais das máquinas de duas linhas será o custo da mão de obra de operação, um dos custos fixos que deve decrescer sensivelmente em função da maior produção dessas máquinas, o que contribuirá para um menor TCO (Custo Total da Operação).

    Para o diretor Agrícola da Atvos, com os custos de colheita sendo parte relevante dentro da composição de custos da produção de cana-de-açúcar, é fundamental que o setor tenha a sua disposição soluções mais eficientes em termos de colheita mecanizada.

    “Tecnologias que incrementem uma ou mais linhas de corte às tecnologias que empregamos atualmente sempre serão muito bem recebidas. É importante que os fabricantes de equipamentos sempre levem esses aspectos em consideração”, conclui.

    De acordo com o engenheiro agrícola, Ricardo Pinto, diretor da RPA Consultoria, a expectativa é que as colhedoras de duas linhas independentes cheguem aos mesmos patamares ou até mesmo ultrapassem as máquinas de uma linha nos índices de danos a soqueira, impurezas e perdas.

    “Assim como em grãos, precisamos pensar em colhedoras de quatro linhas independentes. No entanto, é preciso entender que a colhedora não é uma coisa isolada dentro da operação. O transbordo vai ter que andar junto com essa evolução. Falávamos dos transbordos gigantes, de 20 toneladas que hoje, para as colhedoras de duas linhas, ficaram pequenos”, afirma.

    Ainda segundo Dias, as tecnologias têm que entregar cada vez menos perdas, causar menos danos nos canaviais para aumentar a produtividade e entregar a matéria-prima de acordo com o que a usina precisa em termos de impurezas.

    “Com o uso das tecnologias já existentes e que auxiliam na colheita mecanizada mais algumas inovações, conseguiremos evoluir a qualidade e produtividade da colheita de cana. Só para se ter uma ideia, em um challange day, conseguimos chegar a 5 mil toneladas de colheita/máquina/dia, enquanto o setor atinge 1.000 a 1.500 t dia. Então, com o uso das tecnologias existentes e outras que estão por vir, a colheita mecanizada ainda tem muito espaço para evoluir”, conclui Dias.