Conheça as bactérias “do bem”

Pesquisadores da Embrapa desenvolvem um consórcio de bactérias capaz aumentar em até 30% a produtividade e ainda ajudar na preservação do meio ambiente

Sustentabilidade

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Aliar produtividade e sustentabilidade é um dos principais desafios do agronegócio brasileiro. Pesquisadores da Embrapa Clima Temperado, do Rio Grande do Sul, desenvolveram um consórcio de bactérias “do bem”, capaz aumentar em até 30% a produtividade do cereal e, ao mesmo tempo, contribuir para a preservação do meio ambiente.

 

Esse consórcio de bactérias tem a capacidade de promover a Fixação Biológica de Nitrogênio (FBN) em arroz, técnica usada em leguminosas para disponibilizar à planta o nutriente presente na atmosfera. Nos experimentos, os microrganismos se mostraram aptos a se transformar em um novo bioinsumo para a cultura.

 

MENOR RISCO DE CONTAMINAÇÃO AMBIENTAL

Um dos desafios da região sul do país é aumentar a rentabilidade e a qualidade do arroz irrigado, cultivado em 1,3 milhão de hectares de terras baixas. E na orizicultura irrigada por inundação, segundo pesquisadora da Embrapa Maria Laura Turino Mattos, a aplicação de fertilizantes químicos nitrogenados (FQN) é essencial para obter altas produtividades.

 

De acordo com Maria Laura, o uso racional da adubação nitrogenada mineral é fundamental não somente para aumentar a eficiência de recuperação, mas também para elevar a produtividade das culturas e diminuir o custo de produção e os riscos de contaminação ambiental.

 

“Na lavoura arrozeira, em áreas de terras baixas, apenas 50% do nitrogênio aplicado é integralmente aproveitado pela planta de arroz, e isso tem onerado muito o custo de cada hectare de lavoura. A baixa eficiência agronômica da adubação nitrogenada pode contribuir para o aumento das emissões de gases de efeito estufa”, explica.

 

A cientista comenta que o uso de doses elevadas de nitrogênio na fase inicial do cultivo do arroz promove o crescimento excessivo das plantas, causando autossombreamento das folhas e aumentando a suscetibilidade a doenças fúngicas (principalmente à brusone), assim como o acamamento de plantas, que dificulta a colheita e, por consequência, reduz a produtividade e a qualidade dos grãos, além de aumentar os custos de produção.

 

OS TESTES

Os testes realizados na cultivar BRS Pampa CL, com adubação nitrogenada de cobertura reduzida (90 kg de N por hectare) combinada com dois consórcios bacterianos, resultou em elevadas produtividades em quatro safras agrícolas.

Também foram registrados valores elevados de índice relativo de clorofila e maior acúmulo de nitrogênio nos grãos de arroz como efeito da FBN. A produção de massa seca da parte aérea foi 33% superior em relação ao cultivo feito sem nitrogênio e sem as bactérias de Fixação Biológica do Nitrogênio.

 

AS BACTÉRIAS

Os cientistas testaram dois grupos de bactérias. O primeiro consórcio foi formado por uma espécie de Pseudomonas e duas de Bacillus sp. e resultou em produtividade média de grãos de arroz de 10.585 kg por hectare. O outro continha espécies de Bacillus, de Aeromicrobium e de Rhizobium apresentou produtividade média de grãos de arroz de 11.405 kg por hectare, equiparando-se à produtividade com uso da adubação completa recomendada para o arroz (11.204 Kg ha-¹)

 

“Ficou demonstrada a funcionalidade do gênero Bacillus para aumentar o desempenho produtivo do arroz irrigado. Além disso, os consórcios bacterianos, com diferentes gêneros e espécies, agregam a multifuncionalidade para o benefício das plantas de arroz”, declara a Maria Laura Turino Mattos, que conduziu a pesquisa e é responsável por uma coleção com cerca de 500 microrganismos isolados para o arroz irrigado no ambiente de terras baixas.

 

A PESQUISA

As bactérias “do bem” foram isoladas de folhas, colmos e raízes da cultivar de arroz irrigado BRS Taim e foram obtidas bactérias endofíticas diazotróficas de colmos da cultivar de arroz irrigado BRS Pelotas. Uma outra identificação da presença dessas bactérias foi feita nas cultivares de arroz irrigado BRS Querência, BRS Pampa e BRS Pampeira, todas da Embrapa.

 

A cada safra, os tratamentos foram avaliados pela determinação da massa de grãos e componentes de produção, com registros da eficiência agronômica durante quatro safras agrícolas: 2015/2016, 2017/2018, 2018/2019 e 2019/2020 nas condições edafoclimáticas da Estação Experimental Terras Baixas da Embrapa Clima Temperado, em Pelotas (RS).

 

“É uma pesquisa robusta, que leva anos para obter um microrganismo, sendo necessário para isso a identificação do potencial para uso na agricultura, a validação de eficiência no campo e a comprovação de que ele não é patogênico a homens e plantas, e que não irá impactar negativamente no ambiente”, explica a pesquisadora Maria Laura Mattos.

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