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    Debate sobre a inserção do agro brasileiro no mercado de carbono

    A conclusão do painel Novo agro carbono neutro e negativo, do AgTech Meeting, é de que o sucesso dessa demanda dependerá da democratização do acesso à tecnologia
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    Debate sobre a inserção do agro brasileiro no mercado de carbono
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    Inovação

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    Mercado

    Investir em tecnologias sustentáveis é uma tendência sem volta no agro, tanto para empresas tradicionais como para startups. Porque se, por um lado, as atividades agropecuárias emitem gases de efeito estufa (GEE) na atmosfera, por outro, também exercem papel na compensação, com o sequestro ou mitigação de emissões durante os ciclos produtivos. Nesse contexto, o setor tem enorme potencial de gerar excedente de créditos de carbono, num mercado global, regulado e voluntário, passível de movimentar até US$ 800 bilhões nos próximos anos.

    Mas, antes de mais nada, é preciso democratizar o acesso às tecnologias por todos os atores da cadeia produtiva, sobretudo, os pequenos e médios agricultores e pecuaristas brasileiros. No painel Novo Agro carbono neutro e negativo, realizado no AgTech Meeting 2022, Fábio Passos (Head de Carbon Venture da Bayer Crop Science) trata do assunto ao lado de Luis Veit (Superintendente de Agronegócios do Sicredi) e Renato Rodrigues (Líder de Região para América Latina da Regrow).

    ALTA DEMANDA 
    Em 2021, o mercado voluntário de carbono girou US$ 2 bilhões no mundo, quase quatro vezes mais do que em 2020, de acordo com a plataforma Ecosystem Marketplace, e a demanda só cresce. “É um mercado grande e com muito potencial pela frente, porque quando falamos dele estamos falando também de desmatamento, de rastreabilidade e de confiança na cadeia do agro. Mas ainda precisamos entender como viabilizar a entrada massiva do setor nesse contexto todo”.

    Renato Rodrigues, da Regrow, explica que créditos oriundos do agronegócio podem ser gerados quando, após realizar o balanço do sistema produtivo, há um excedente de carbono, que não é apenas composto por CO², mas por todos os gases de efeito estufa (GEE), que são convertidos em CO² equivalente. “O carbono é utilizado como uma referência para todos os gases”, diz. Segundo ele, existem duas possibilidades de atuar nesse mercado através do setor florestal, e outras duas alternativas através da agricultura e pecuária, sendo estes mecanismos distintos. 

    “No setor florestal, é possível utilizar o REDD+ (Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação), que se trata da preservação das florestas, e o mecanismo de ARR (Florestamento, Reflorestamento e Revegetação), onde já existe uma área desmatada e faz-se um plantio florestal. Nesse caso, estamos sequestrando o carbono por um período determinado, o tempo de vida da árvore”, afirma. “Na agricultura, ocorre um mecanismo parecido, mas o sequestro do carbono é feito pelo solo e ainda existem os mecanismos de mitigação, com a adoção de boas práticas”. Nesses casos, conforme Rodrigues, o crédito de carbono pode ser mais valioso que os demais porque os gases não foram sequer emitidos, e sim mitigados por manejos sustentáveis. 

    REGULAÇÃO
    Para atuar no mercado de carbono voluntário, é preciso seguir normas internacionais e ter o reconhecimento de um órgão competente. “Esse órgão internacional fará a verificação e aprovará a comercialização de créditos de carbono”, explica. “Ainda é um processo que envolve altos custos e metodologias adaptadas para o clima brasileiro”.

    DEMOCRATIZAÇÃO DAS TECNOLOGIAS
    Um dos maiores desafios para inserir o agronegócio no mercado de carbono, de acordo com Luis Veit, do Sicredi, consiste em trazer os pequenos e médios produtores rurais para perto, além de desenvolver metodologias de mensuração tropicalizadas, adaptadas aos biomas brasileiros. “Estamos atuando fortemente com esses produtores para democratizar as informações, o acesso às tecnologias existentes e, para atingir o objetivo, estamos estabelecendo também parcerias com outros bancos cooperativos, universidades, companhias e as agtechs”, conta. 

    Segundo ele, a demanda, por parte da base de cooperados do Sicredi, que soma mais de 650 mil produtores rurais, vem aumentando. “Se levarmos em consideração os compromissos das empresas e a demanda, estamos falando de um setor que vai precisar crescer 14 vezes no mínimo”, afirma. “Essa demanda tem que vir do agro”. Segundo a FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação), o agronegócio brasileiro deve ser o responsável por 25% da remoção dos gases de efeito estufa da atmosfera.

    Fábio Passos conta que a Bayer está desenvolvendo um projeto, em conjunto com 10 instituições de pesquisa e que envolve 32 pesquisadores, para adaptar metodologias ao clima tropical. “Estamos testando três metodologias que possuem custos mais escaláveis e, principalmente, olhando para o produtor, pois ele será impactado por mudanças de manejo, as chamadas adicionalidades”, diz. “O excedente de carbono tem que ser a consequência do sistema e não a sua causa”.

    OPORTUNIDADES FUTURAS
    As adicionalidades (efeito adicional que não aconteceria sem uma mudança motivada por emitir o crédito) que precisam ser inseridas no sistema para a geração de créditos de carbono, segundo os painelistas, podem inicialmente “não ter comparação financeira” com o resultado, por exemplo, da soja, mas podem gerar excelentes oportunidades no futuro. “Estamos falando de mudanças que no curto prazo podem impactar as operações do produtor, mas que vão adicionar benefícios ao longo do tempo. É como olhar para o futuro e enxergar não apenas as oportunidades de novos negócios e a comercialização do crédito de carbono em si, mas qualquer tipo de comercialização, porque quem não seguir boas práticas não terá mais lugar nesse mercado”, afirma Rodrigues.

    Nesse contexto todo, o mercado de créditos de carbono ainda vai requerer das startups um intenso processo de criação de ferramentas digitalizadas que atinjam toda a cadeia produtiva e ajudem a democratizar o acesso às oportunidades. “Será preciso investir em soluções para todas as áreas em vez de áreas específicas, caso contrário, vamos gerar uma grande corrida de um lado e deixar lacunas abertas de outro”, afirma Veit. “O mundo das inovações terá que trazer novidades que nem sequer podemos imaginar hoje”, diz Rodrigues.

    Por Viviane Taguchi, AgTech Garage