O próximo desafio do agro sustentável é ganhar escala

Mercado está repleto de oportunidades para investimentos sustentáveis, mas estratégias devem ir além do marketing empresarial

Sustentabilidade

img-news

A nova demanda do mundo corporativo já está estabelecida e ela passa, invariavelmente, pela estratégia ESG, sigla em inglês para Environmental, Social and Governance. Mas não é de hoje que as boas práticas ambientais, sociais e de governança permeiam o setor do agronegócio. O fato é que: elas precisam ganhar mais e mais escala.

 

Produzir alimentos de forma eficiente e com responsabilidade social e ambiental é um tema caro ao setor já há algumas décadas e há, no campo, experiências sustentáveis que se tornaram referências globais.

 

No painel “As oportunidades da nova dinâmica do agro sustentável”, que aconteceu durante o AgTech Meeting, três atores de diferentes setores da cadeia do agronegócio compartilharam seus cases de sucesso.

 

O pecuarista Jônadan Ma, do Grupo Araunah; o diretor global de sustentabilidade da DSM, Carlos Saviani, e o empreendedor Rogerio Cavalcanti, da Um Grau e Meio, foram os convidados do painel, que teve a mediação de Marcelo Carvalho, co-fundador do AgTech Garage.

 

INVESTIDORES SÃO OS NOVOS ATIVISTAS AMBIENTAIS

“Sustentabilidade não é apenas uma coisa bacana de se ver, mas é fundamental para a sobrevivência da sociedade”. Com essa citação, o diretor global de sustentabilidade da multinacional DSM, Carlos Saviani, contou que há mais de 20 anos, as boas práticas ambientais, sociais e de governança são praticadas pela empresa, que atua no ramo da indústria química e de nutrição animal.

 

Segundo Saviani, os números globais são o maior indicativo de que a sustentabilidade no agronegócio precisa ser prioridade. “Em 2050, seremos 9,7 bilhões de pessoas no planeta e, hoje, temos 821 milhões de pessoas que sofrem com desnutrição e fome. As pessoas obesas, por sua vez, são 650 milhões”, disse.

 

Esses números, associados aos impactos ambientais provocados pela produção alimentar, agora chamam a atenção dos investidores. “Os impactos estão cada vez mais evidentes e geram movimentos por todos os lados. Hoje, os maiores ativistas ambientais não são mais as ONGs, mas são os investidores”, afirmou Saviani.

 

Saviani disse que, no mercado atual, a demanda por responsabilidade ambiental e social compõem índices importantes para o mercado e são premissas para iniciativas empresariais, como rankings corporativos e de riscos.

 

“O valor das marcas, da reputação das empresas são uma preocupação para os investidores. O mercado demanda responsabilidade e as empresas que não se adequarem a essa demanda estarão de fora”.

 

Para melhorar suas estratégias de ESG, a multinacional, segundo o executivo, está focada agora em melhorar os índices de seis áreas de atuação: reduzir o uso de antibióticos em seus processos, o uso de recursos marinhos (peixes para a produção de óleo e farinha), diminuir as emissões de gases de efeito estufa, melhorar a eficiência da produção e a qualidade dos alimentos, reduzindo o desperdício. “Ainda temos muito a melhorar em toda a cadeia de produção de proteínas animais”.

 

COMBATE AOS INCÊNDIOS FLORESTAIS

Já para a startup Um Grau e Meio, o objetivo é reduzir a emissão de CO2 por incêndios florestais. Fundada há cinco anos pelo empreendedor Rogério Cavalcanti, a empresa tem um sistema proprietário de inteligência artificial e utiliza câmeras que giram 360 graus, 24 horas por dia, para monitorar áreas grandes extensões de área em busca de sinais de fumaça em um raio de 15 quilômetros.

 

O algoritmo, segundo Cavalcanti, analisa as imagens em tempo real e emite um alerta, reduzindo o tempo de detecção de um foco de incêndio de 48 horas para 3 minutos.

 

Cavalcanti afirma que, antes de mais nada, para que o gerenciamento sustentável seja eficiente, é preciso buscar transparência nos indicadores ambientais e revelar os impactos reais a campo, indicando, ainda, como minimizá-los. “O ESG trouxe uma visão nova para o mercado quanto à precificação de uma atividade econômica e essa nova cultura muda os conceitos de lucro”, disse. “Investir em ESG não é investimento nem custo, é lucro”.

 

Segundo ele, para empresas que pensam na longevidade dos negócios, não existe lucro quando o meio ambiente é lesado de alguma forma. “Não é sustentável, não tem continuidade, e o ESG traz um componente novo para o mercado, que precifica e valoriza qualquer atividade econômica, principalmente o agronegócio”.

 

Além dos novos conceitos, ele cita que as estratégias de ESG impõem às empresas uma revisita aos seus processos de melhoria internos, principalmente os que envolvem investimentos em pesquisa e desenvolvimento, para que ações efetivas sejam desenvolvidas e reduzam os impactos.

 

SUSTENTABILIDADE AUMENTA LUCROS

O produtor rural Jônadan Ma, do Grupo Aruanah, investe em pecuária leiteira e agricultura sustentável em uma fazenda no Triângulo Mineiro.

 

 

O negócio familiar, que começou com seus avós, envolve sustentabilidade em sua estrutura: sucessão familiar e a comunidade envolvida em toda a sua história. “Nossa missão sempre foi transformar a vida das pessoas de forma real e não apenas na ideologia”, disse.

 

O pecuarista conta que o Grupo Aruanah cresceu baseado em fundamentos como preservação, integração, verticalização, parceria e governança. Segundo ele, as certificações socioambientais obtidas pelo grupo exigiram investimentos (aplicados em adequações, sistemas e novos manejos), mas hoje, ele enxerga tudo isso como lucro. “Todas as mudanças e adaptações geraram economia no processo todo e se reverteram em lucros”, afirmou. “Seguir as estratégias de ESG não foi um investimento e não teve custo, mas aumentou o lucro do negócio”.

 

 

Texto publicado originalmente no:

https://www.agtechgarage.news/o-proximo-desafio-do-agro-sustentavel-e-ganhar-escala/

 

logo