O solo tem memória e fala

Dra. Ieda Mendes explica como escutar e entender as formas de mantê-lo saudável

Sustentabilidade

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Se você nunca pensou no solo como um ser vivo e em como a sua saúde afeta diretamente a produtividade, qualidade e nível de nutrientes dos alimentos, precisa conhecer o trabalho desenvolvido pela Dra. Ieda Mendes. A pesquisadora da Embrapa falou sobre o tema Solos em Sistemas Integrados em palestra virtual para o Santa Brígida Open Farm 2021, e o John Deere Conecta traz os principais pontos.

SAÚDE DO SOLO
Saúde do solo é um conceito que está relacionado com os aspectos de química, física e biologia. Muitas pessoas pensam que saúde do solo tem a ver apenas com produtividade, ou seja, se o meu solo produz bem, significa que está saudável. 

E não é bem isso. É muito mais do que produzir quilos de grão ou arrobas de carne por hectare. 
Saúde do solo tem a ver, sim, com a parte de produtividade biológica, porque todo solo saudável é um solo produtivo. 

Mas também tem relação com essa capacidade de funcionar como prestador de importantes serviços ambientais, como, por exemplo, armazenamento de água, sequestro de carbono, ciclagem de nutrientes, entre outros.

Essa parte de promoção da qualidade ambiental é outro aspecto muito importante de saúde do solo. Isso tem a ver com a capacidade do solo em promover ambientes saudáveis, onde nós teremos desenvolvimento de plantas, pessoas e animais também saudáveis.

UNIVERSO PARALELO
Sabemos que o solo abriga a maior diversidade do planeta. Temos, debaixo dos nossos pés, um verdadeiro universo paralelo. O solo funciona como se fosse um grande superorganismo e ele pode adoecer, dependendo do que a gente faz em termos de manejo.

E como saber se o nosso solo está saudável ou se está doente? Como fazer esse diagnóstico?

EXAME DE SANGUE DO SOLO
Ano passado, lançamos a tecnologia de bioanálise de solo, a BIOAS, que consiste na agregação de duas enzimas, uma do ciclo do carbono e outra do ciclo do enxofre, nas nossas análises de solo.

O Brasil é o primeiro país do mundo a ter à disposição do seu agricultor duas enzimas nas análises rotineiras de solo. 

Podemos dizer que funcionam como se fosse o exame de sangue do solo.

Por meio dessas enzimas, podemos avaliar se o nosso solo tem ou não problemas de saúde. É uma coisa única no mundo.

MEMÓRIAS DO SOLO
Com essas enzimas conseguimos não só avaliar a saúde do solo, mas também acessar a sua memória. O solo tem histórias para contar e a gente tem que saber exercer esse diálogo, essa comunicação.

Um exemplo emblemático sobre como o solo tem memórias e o quanto é importante saber acessá-las é um experimento de rotação de culturas da soja conduzido pela fundação MT, em Itiquira, no Mato Grosso.

Várias rotações e sucessões são comparadas com o tratamento em que a soja é cultivada em monocultura, ou seja, apenas soja.

São vários tratamentos e vamos selecionar dois. Um deles é o Pousio, ou seja, aquele que é só soja sempre, e o outro tratamento é onde a soja é sucedida pela braquiária. Nos primeiros seis anos de condução do experimento, os níveis de produtividade eram similares. Os dados de análise química do solo, comparando pH, cálcio, potássio, entre outros, eram muito semelhantes, com um pouco mais de matéria orgânica no tratamento com braquiária.

Contudo, no sétimo ano de condução do experimento, na safra 2014/2015, ocorreu um veranico muito forte na fase de floração e, pela primeira vez, observamos esse efeito do tratamento: onde a soja era plantada com sucessão de braquiária, a produção foi de 59 sacas, enquanto o monocultivo produziu 29, uma diferença de 30 sacas.

IGUAIS, MAS DIFERENTES
Você pode estar se perguntando: mas eles não tinham a mesma análise química? Verdade, mas é aí que entra a importância de a gente saber acessar a memória do solo. Com a tecnologia BIOAS, conseguimos comparar as duas áreas e ver claramente que elas eram completamente distintas.

A área de braquiária apresentava quatro vezes mais atividade B-glicosidade e oito vezes mais atividade da Sulfatase, que é a enzima do ciclo do enxofre. Ou seja, embora esses solos fossem quimicamente semelhantes, biologicamente eram completamente distintos.

Isso é que mostra a limitação do conceito mineralista para avaliar a saúde do solo. Não é simplesmente uma questão de excesso ou falta de nutrientes. Na área onde a soja era cultivada em monocultivo, o solo tinha baixa qualidade biológica e baixa atividade enzimática. Era um solo doente. Onde foi cultivado com braquiária, era de alta qualidade e alta atividade enzimática, ou seja, o solo era saudável.

Apenas o solo saudável tolerou muito melhor aquela condição de estresse hídrico, comparativamente ao solo doente.

EXEMPLO DA PANDEMIA
Vivemos nessa época de pandemia e fica muito claro que pessoas com comorbidades são muito mais suscetíveis à doença que as pessoas saudáveis.

É a mesma coisa com os nossos solos. Um solo saudável e biologicamente ativo é muito mais resiliente e muito mais produtivo, enfrenta melhor as adversidades como, por exemplo, a falta de chuva.

Antes do veranico, nas duas áreas, o nível de rendimento era semelhante. Isso mostra claramente que boa produtividade não é garantia de solo saudável.

O solo pode estar produzindo bem, mas apresentar problemas assintomáticos de saúde.

Depois daquele veranico, nunca mais os níveis de produção desses tratamentos de soja em monocultivo se equipararam aos níveis de produtividade obtidos naqueles tratamentos nos quais era cultivada em sucessão ou rotação. É como se o solo tivesse ficado sequelado e nunca mais conseguiu se recuperar.

SOLO EMPODERADO
Esse é um dos grandes poderes do solo saudável: armazenar mais água.

E por que isso acontece? Nas áreas onde o solo é saudável, a estrutura física é melhor e ele consegue reter mais água. E retendo mais água, as plantas toleram melhor a condição de veranico de falta d'água. 

O contrário é verdadeiro. Onde há monocultivo, não tem biologia. A agregação do solo é péssima, a estrutura é horrorosa. O solo não consegue armazenar água e as plantas sofrem.

A biologia do solo é o que cola esses agregados. 

PODER DE REGENERAÇÃO
Outro grande poder do solo saudável é a parte de biorremediação de pesticidas. No solo com integração lavoura-pecuária, onde há mais atividade enzimática, o tempo de persistência desses produtos é menor, ou seja, o solo se desintoxica mais rapidamente.

PLANTAS MAIS NUTRITIVAS
Onde o solo tem alta atividade enzimática, ou seja, soja cultivada em rotação (soja - milho safrinha com braquiária, e depois braquiária com soja – crotalária - safrinha), os teores de flavonoides e de proteína nos grãos são muito maiores do que nas áreas de monocultivo ou mesmo na rotação soja - milho. 

Isso reforça aquele mantra que a gente tem: solos saudáveis - plantas saudáveis - plantas mais nutritivas. Tudo intimamente relacionado com segurança alimentar.

SAÚDE DE PLANTAS: NEMATOIDES
Outro grande poder do solo saudável é com relação à parte de nematoides, ou seja, a saúde das plantas.

Nas áreas onde temos rotação de cultura, maior atividade enzimática e presença de braquiária, a população de nematoides é muito menor e, consequentemente, os níveis de rendimento da soja são muito maiores. 

Comparativamente, nas áreas onde o solo está doente, com baixa atividade enzimática, a ocorrência de nematoides é favorecida. Isso enfraquece as nossas plantas e leva ao menor desenvolvimento em termos de produtividade.

ROCK IN RIO
Em todos os sistemas de produção agrícola tropical com solo saudável o ponto em comum é a braquiária, a nossa grande vedete para esses casos.

Com ela cobrindo o solo, este não tem febre, não tem fome, não tem sede.

Com a braquiária cobrindo o solo no final da estação de seca, na região do Cerrado, é como se fosse um Rock in Rio dos microrganismos. Eles fazem festa nessa raiz. Imagine: época seca, quando teoricamente não teria nada no solo, eles têm essa planta fantástica condicionando o solo química, física e biologicamente. Um condicionador barato e eficiente.

A moderna agricultura tropical do século 21 usa capim, realmente uma quebra de paradigma.

O SOLO FALA
E, como o solo tem memória, estudos comprovam que ele está dizendo a mesma coisa. Se pudéssemos ouvir sua voz, seria algo como: “O que eu gosto e que favorece a minha saúde é a integração lavoura, pecuária e floresta.”

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